O Sítio Velho


Foto: Arquivo Pessoal

Há lugares que a gente nunca deixa. Apenas aprende a visitá-los pela memória.

O Sítio Velho era um desses lugares. Antes mesmo de entrar, havia uma porteira preta, quase sempre aberta. Meu pai gostava de receber. Acho que aquela porteira dizia muito sobre ele.

Quem chegava era bem-vindo.

Depois dela vinha um gramado enorme, sempre muito verde. Meu pai tinha um cuidado quase apaixonado por aquele jardim. Valdemar passava horas com as mangueiras, regando cada pedaço de grama. A piscina era de um azul que parecia conversar com o céu, e logo adiante o mar se abria imenso, enquanto os coqueiros dançavam ao sabor do vento de Paripueira.

A vida acontecia sem pressa.

As galinhas andavam soltas, botando ovos onde bem entendiam. Os perus quebravam o silêncio da madrugada com seus glu-glus, e o galo, antes mesmo do amanhecer, fazia questão de anunciar um novo dia. Os cachorros eram nossos companheiros de todas as horas, correndo livres por aquele pedaço de paraíso.

Os sábados eram sagrados.

Meu pai viveu muitos anos longe de Maceió, e eram os amigos que faziam o caminho até Paripueira para passar o dia com ele. Chegavam cedo e só iam embora quando o sol já começava a se despedir. Levavam as novidades da cidade, colocavam a conversa em dia, riam, lembravam histórias. O Sítio Velho se transformava num ponto de encontro, onde a amizade ocupava todos os espaços da casa.

A mesa era sempre generosa. Nunca faltava o bolo de macaxeira que Valdemar aprendera a fazer com minha mãe. Taciana preparava um camarão inesquecível, uma galinha ao molho pardo que reunia todos ao redor da mesa, e o almoço parecia nunca ter hora para acabar.

Enquanto os adultos conversavam, minhas filhas cresciam. Corriam pelo gramado, aprendiam a andar de bicicleta, descobriam a liberdade de uma infância vivida ao ar livre. Minha mãe caminhava pelo sítio de chapéu de palha e botas de galocha, cuidando das galinhas, olhando os ninhos, observando tudo com o carinho de quem fazia daquele lugar uma extensão da própria casa.

Havia pitangas, figos, cajás. Havia amanheceres de uma beleza indescritível e entardeceres que pareciam demorados de propósito, como se o dia não quisesse terminar. E havia o vento… aquele vento forte, que fazia os coqueiros balançarem e enchia o sítio de um som que nunca mais saiu de mim.

Hoje percebo que o Sítio Velho era muito mais do que uma casa de praia ou um sítio à beira-mar. Era um jeito de viver. Um lugar onde a porta estava aberta, a mesa estava posta e sempre havia espaço para mais um amigo.

O tempo passou. Muita coisa mudou. Mas, quando a saudade aperta, basta fechar os olhos. A porteira preta continua aberta. Meu pai ainda recebe os amigos. Minha mãe ainda caminha entre as galinhas. Minhas filhas ainda correm pela grama. E eu continuo ali, guardando um tempo que nunca deixou de existir dentro de mim.

Duse Leite jornalista e funcionária pública

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