MINHA CASA PEDIU SOCORRO


Quando voltei a morar na casa do Farol, trouxe minhas coisas.

Minha filha veio comigo. Só que ela não veio sozinha. Veio o marido, três crianças — uma de oito anos, uma de quatro e uma bebê de um ano e oito meses — e, evidentemente, as coisas de todo mundo.

Foi aí que eu descobri uma verdade que ninguém conta quando você compra uma casa: a casa tem tamanho. As coisas, não.

Começou assim.

Duas geladeiras.

Dois fogões.

Dois liquidificadores.

Três sanduicheiras.

Quatro sofás.

Televisão em praticamente todos os quartos.

Ventiladores suficientes para, se ligados juntos, provocar um pequeno furacão doméstico.

E eu ainda olho para certas coisas e penso: “Isso aqui ainda nem foi organizado.”

Nem foi organizado!

A casa tem uma suíte, dois quartos, sala, cozinha, área de serviço, garagem e um lavabo.

Aliás, tinha um lavabo.

Porque lavabo, hoje, é uma lembrança do passado.

O nosso lavabo pediu demissão.

Não aguenta mais.

Ele começou como lavabo, mas, diante da quantidade de coisas que chegaram, decidiu mudar de profissão. Hoje é depósito, almoxarifado, oficina e arquivo morto, tudo ao mesmo tempo.

Lá dentro tem escada, caixas, alicate, martelo, pá, prego, parafuso e quatro caixas de materiais de emergência.

Quatro!

Não sei exatamente qual é a emergência que exige quatro caixas de ferramentas, mas, quando ela chegar, estaremos preparados.

Se faltar um prego em Maceió, pode deixar comigo.

Se alguém precisar de um alicate às três da manhã, também.

O problema é que ninguém sabe onde está o alicate.

Porque ele está no lavabo.

E o lavabo está cheio.

A área de serviço também não está muito diferente. Tem máquina de lavar, armários, mantimentos, material de limpeza, coisas que eu nem sei o que são e outras que provavelmente um dia serão necessárias.

É uma espécie de supermercado particular.

Só não aceitamos cartão.

E aí existem os brinquedos.

Meu Deus do céu.

Os brinquedos.

Tem tanto brinquedo naquela casa que, se as crianças resolverem abrir uma loja, eu apoio.

Tem baú de brinquedo.

Baú.

E outro.

E mais outro.

Eu já não sei se são brinquedos dentro dos baús ou se são baús dentro dos brinquedos.

De noite, quando as meninas dormem, eu olho para a casa e penso:
“Agora vai.”

Tudo no lugar.

Silêncio.

Paz.

Minhas plantinhas estão estrategicamente colocadas nos lugares mais altos possíveis, porque planta no chão aqui dura menos que promessa de político.

Então eu durmo tranquila.

Até amanhecer.

Porque criança dorme.

Mas criança acorda.

E quando acorda, parece que alguém apertou um botão escrito:
“DESORGANIZAR TUDO.”

Em poucos minutos, tem brinquedo no chão, boneca no sofá, alguma coisa na cozinha, outra coisa no quarto e sempre existe um objeto que ninguém sabe de quem é.

Eu passo recolhendo.

Pego daqui.

Boto ali.

Pego dali.

Boto acolá.

Quando termino, olho para trás e penso:
“Eu estava fazendo o quê mesmo?”

Porque cinco minutos depois está tudo espalhado novamente.

Tenho também três gatos.

Três.

Cada um com sua comida, sua areia, sua personalidade e a absoluta certeza de que aquela casa pertence a eles.

Eu apenas pago algumas contas.

Tinha a Lolita também.

Essa não está mais aqui.

Deus resolveu levá-la e deixou uma saudade danada. Chorei por praticamente uma semana e, quatro meses depois, ainda me pego lembrando dela.

Mas a casa não teve tempo de ficar vazia.

Pelo contrário.

A casa continuou recebendo gente, brinquedo, gato, panela, ventilador, caixa, ferramenta e sabe Deus mais o quê.

Meu genro chega cansado do trabalho.

Abre a porta.

Olha.

Respira.

E eu fico imaginando o pensamento dele:
“Eu vim para casa ou entrei numa mudança?”

Porque são dois carros na garagem.

Dois.

Se chegar visita de carro, a visita estaciona na rua e ainda agradece por ter conseguido sair viva.

E eu já cheguei a uma conclusão:
não podemos comprar mais nada.

Nada.

Se alguém aparecer aqui em casa com uma sanduicheira nova, eu não vou perguntar quanto custou.

Vou perguntar:
“Você quer levar uma das três que eu tenho?”

Geladeira, então, está proibida.

Fogão, nem pensar.

Liquidificador? Só se for acompanhado de uma declaração reconhecida em cartório dizendo que você vai levá-lo embora quando terminar de usar.

A casa está lotada.

Mas não é uma casa triste.

É uma casa barulhenta, apertada, cheia de vida e com objetos disputando espaço como se estivessem em campanha eleitoral.

É uma casa onde eu encontro um brinquedo dentro da cozinha, uma panela no lugar errado, um gato no lugar certo — porque o lugar certo do gato é onde ele decidiu ficar — e uma ferramenta no lavabo que

provavelmente está esperando há anos pela emergência que nunca chega.

É uma bagunça organizada.

Só tem um detalhe:
a organização dura até as crianças acordarem.

Depois disso, minha querida, não há organização que resista.

E eu já estou começando a pensar que, se continuar chegando coisa nessa casa, a próxima mudança não vai ser para outra casa.

Vai ser para um galpão.

Com lavabo.

Porque, pelo menos, o lavabo já está treinado.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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