Alagoas se vestindo de muitas cores


Tem coisas que só acontecem em época de eleição. A gente sai de casa para resolver uma coisa qualquer e, no caminho, escuta um jingle. Não deu nem tempo de prestar atenção direito, mas a música fica. Passa um carro, depois outro. Uma carreata dobra a esquina. E, quando a gente menos espera, está chegando em casa cantando uma música que, até poucas horas antes, nem sabia que existia. Jingle é assim. Entra sem pedir licença.

E tem também as cores. De repente, a cidade fica mais colorida. O azul aparece de um lado, o amarelo de outro. Tem verde, laranja, branco, vermelho. Cada campanha escolhe sua cor, suas camisas, suas bandeiras, seus balões, seus detalhes. E as pessoas vão para as ruas vestidas daquela cor, como se, por alguns dias, cada grupo tivesse escolhido uma maneira própria de pintar a cidade.

As carreatas são um espetáculo à parte. São carros, motos, bandeiras, camisas, buzinas e luzes. E eu tenho a impressão de que, nessa época, até as luzes iluminam mais. Talvez seja só impressão. Mas é bonito ver a cidade assim, cheia de movimento, de gente, de música. Uma pessoa sai para comprar pão e encontra uma carreata. Outra vai resolver um problema e volta para casa sabendo cantar o refrão do jingle que ouviu três vezes no caminho.

E, no meio de tudo isso, a cultura popular também encontra espaço. As baianas, o artesanato, a capoeira e tantas outras manifestações populares aparecem nas ruas e nos eventos, trazendo seus próprios ritmos, cores e histórias. É como se a campanha, por alguns instantes, também se misturasse àquilo que Alagoas já tem de seu: uma cultura viva, diversa e que não precisa de eleição para existir.

E é curioso como tudo isso vai entrando na nossa rotina. A eleição está no rádio, na televisão, no celular, na esquina, na conversa do vizinho e, principalmente, nas ruas. Cada candidato escolhe uma cor. Cada campanha cria sua identidade. E, durante um tempo, Alagoas parece uma grande paleta.

Mas nenhuma eleição dura para sempre. Chega o dia da votação. Depois vêm os resultados. As carreatas vão diminuindo, os carros de som silenciam, os jingles deixam de tocar e as camisas coloridas começam a desaparecer das ruas.

E é aí que eu penso que as cores mais bonitas são aquelas que não dependem de eleição nenhuma. O mar continua azul. O sol continua dourado. O verde continua nos coqueiros e nas árvores. O céu continua inventando suas próprias cores no fim da tarde.

E Alagoas continua sendo Alagoas.

Talvez seja essa a parte mais bonita de tudo: a campanha passa, a música passa, a cor escolhida para aquele momento passa. Mas a nossa paisagem fica.

E, no dia seguinte, mesmo depois de toda a festa, a gente acorda com o mesmo mar azul, o mesmo sol dourado e esse nosso pedaço de mundo que continua, teimosamente, colorido.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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