A Turquia é logo ali, depois do próximo episódio


Eu não sei quantas séries turcas já assisti. Perdi a conta. A Netflix colocou a Turquia dentro da minha casa e eu, em vez de chamar a imigração, ofereci o sofá. Desde então, tenho viajado para Istambul sem sair de casa — e sem precisar enfrentar aeroporto, mala ou fila de embarque.

Sou apaixonada por séries turcas. E tenho algumas razões muito convincentes para isso. Os homens são belíssimos, as mulheres são lindas, as roupas são um espetáculo e os cenários fazem qualquer pessoa pensar seriamente em comprar uma passagem só de ida.

Mas há muito mais por trás da beleza.

As séries nos apresentam uma Turquia de tradições fortes, famílias muito presentes, costumes antigos convivendo com a modernidade e relações humanas cheias de conflitos. E talvez seja justamente isso que nos prende: descobrimos uma cultura diferente e, ao mesmo tempo, reconhecemos nela problemas que poderiam acontecer em qualquer família brasileira.

Claro que os turcos têm uma maneira peculiar de resolver seus problemas. Ou melhor: de não resolver.

Um personagem descobre uma verdade importantíssima e não conta. O outro pergunta e ele olha para o nada. A mocinha sofre. O mocinho sofre. A família inteira sofre. E nós, do outro lado da tela, quase entrando na televisão:
— Pelo amor de Deus, conversem!

E quando finalmente alguém decide falar, já se passaram quinze episódios.

Em O Sol da Minha Vida, encontrei outro fenômeno que ainda estou tentando entender: personagens convivem com a gente durante vários capítulos e, de repente, são presos, adoecem, vão para o hospital ou simplesmente desaparecem. E pronto. Ninguém explica. Ninguém pergunta. A vida continua como se aquele personagem tivesse apenas faltado ao almoço de domingo.

Eu fico esperando alguém dizer: “Mas e fulano?”

Nada.

Talvez ele tenha conseguido emprego em outra novela.

Mesmo assim, continuo assistindo. Porque essas séries têm uma coisa poderosa: sabem contar histórias sobre amor, família, ciúme, perdas, diferenças sociais, escolhas e recomeços. E sentimentos não precisam de tradução.

Foi assim que a Turquia atravessou o oceano e entrou na sala dos brasileiros. Primeiro pela curiosidade. Depois pelo encanto. Quando percebemos, já estamos conhecendo cidades, tradições, músicas, roupas, comidas e até palavras que antes pareciam completamente estrangeiras.

E há uma beleza nisso: a televisão consegue aproximar mundos que parecem distantes.

Eu continuo aqui, entre uma série e outra, admirando Istambul, os figurinos, os atores — alguns, convenhamos, colaboram bastante para a audiência — e tentando descobrir o paradeiro dos personagens que desaparecem sem deixar endereço.

Digo sempre que vou assistir só mais um episódio.

Nunca é verdade.

A Turquia é logo ali, depois do próximo episódio. E, pelo jeito, eu ainda tenho muita história para viver por lá.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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