Guerra dos Mosquitos


Eu nunca mais escrevi reclamando de nada. Nunca mais contei aqui as histórias do meu cotidiano, aquelas pequenas coisas que acontecem dentro de casa e que, quando a gente olha bem, dariam uma crônica inteira.

Parecia que a minha vida estava muito calma.

Parecia.

Porque agora a nossa guerra é com os mosquitos.

E eu preciso dizer: os mosquitos mudaram. Não sei se foi o clima, a evolução da espécie, a falta de vergonha ou se eles simplesmente perderam o medo da humanidade.

Antigamente, mosquito respeitava a gente.

Você levantava a mão e ele corria. Pegava o inseticida e ele desaparecia. Bastava uma chinelada no ar para o mosquito entender que aquela casa tinha dono.

Hoje, não.

Hoje você levanta a mão e ele fica.

Você pega o inseticida e ele continua voando.

Você tenta acertar e ele ainda faz uma curva no ar, como quem diz:
— Tente outra vez.

É uma afronta!

E o pior é o tamanho.

Eu não sei o que está acontecendo com esses mosquitos, mas alguns já estão quase do tamanho de uma mosca. E aí começa outro problema: a gente olha e fica naquele impasse.

É mosquito?

É mosca?

É um mosquito que fez intercâmbio?

Eu sei que existe aquela história de que, na Quaresma, aparecem muitas moscas. Tudo bem. As moscas têm até período certo para aparecer.

Mas e os mosquitos?

Porque, pelo que estou percebendo, esses não respeitam calendário religioso, estação do ano nem nada.

Calor? Estão lá.

Umidade? Estão lá.

Chuva? Estão lá.

Sem chuva? Estão lá também.

Pelo jeito, o mosquito não tem temporada.

Tem residência fixa.

E não adianta a gente limpar a casa. A gente limpa, organiza, não deixa água parada, toma todos os cuidados possíveis. E eles aparecem.

De onde vêm?

Não sei.

Mas aparecem com uma organização impressionante.

E não aparecem sozinhos. É sempre um ou dois primeiro, como se fossem os olheiros.

Depois chegam os outros.

Parece que existe uma central de comando em algum lugar:
— Podem entrar. A senhora já está dormindo.

Porque mosquito parece ter um radar para tranquilidade.

Você passa o dia inteiro sem ver nenhum. Mas basta apagar a luz, ajeitar o travesseiro e fechar os olhos que começa:
zzzzzzzzzzzz…

Bem perto do ouvido.

Você acende a luz.

Nada.

Procura na parede.

Nada.

Olha para o teto.

Nada.

Atrás da cortina.

Nada.

Apaga novamente.

ZZZZZZZZZZ…

Ele volta.

É um mosquito ou um psicólogo?

Porque aquilo já não é picada. É perseguição psicológica.

E quando finalmente conseguimos enxergar o infeliz, ele ainda tem a coragem de pousar na parede numa altura que parece propositalmente escolhida para dificultar a execução.

Aí começa o espetáculo.

Inseticida numa mão.

Sandália na outra.

Olho arregalado.

Pescoço duro.

E a pessoa andando pela casa como se estivesse participando de uma operação policial.

E o mosquito?

Vivo.

Inteiro.

Veloz.

Sem demonstrar nenhum respeito pela autoridade doméstica.

Estou começando a desconfiar de que os mosquitos de hoje não têm mais medo de inseticida porque já nasceram sabendo que a gente não consegue acertá-los.

Eles evoluíram.

Nós, aparentemente, não.

Talvez o mundo esteja mesmo muito diferente.

Antigamente, nós perseguíamos os mosquitos.

Hoje, eles nos perseguem.

E, pelo tamanho que estão ficando, daqui a pouco não seremos mais nós que diremos:
— Tem um mosquito no quarto.

Serão eles que dirão:
— Tem uma humana na casa. Vamos esperar ela dormir.

E eu só queria que minha vida voltasse a ser calma.

Mas, pelo jeito, antes disso vou precisar negociar um tratado de paz com a comunidade dos mosquitos.

Porque guerra mesmo já está ficando perigosa.

Principalmente porque alguns deles já estão quase do tamanho de uma mosca.

E eu me recuso a aceitar que, dentro da minha própria casa, eu tenha que pedir documento de identidade para descobrir quem é quem.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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