Hoje o céu amanheceu nublado.
Depois de uma madrugada inteira de chuva, as nuvens ainda ocupam espaço, como quem não tem pressa de ir embora. Não há sol à vista, embora digam que os raios ultravioleta estarão fortes e que é preciso proteger a pele. É curioso: às vezes, o que não enxergamos também exige cuidado.
Fiquei pensando nisso.
Talvez a escrita seja um pouco assim.
Há quem escreva depressa, jogando as palavras umas sobre as outras, sem muita preocupação com pontos, vírgulas, parágrafos ou concordâncias. E está tudo bem. Cada pessoa tem seu jeito de se expressar, sua história, sua maneira de colocar o pensamento no mundo.
Eu, porém, tenho um cuidado diferente com as palavras.
Não porque queira escrever difícil. Muito menos para escrever apenas para alguns. Ao contrário. Gosto de escrever para muita gente. Quero que a palavra alcance quem lê, que a frase seja compreendida, que o sentimento chegue inteiro ao outro lado.
Por isso, reviso.
Olho a vírgula. Procuro o ponto. Releio a frase. Arrumo o parágrafo. Volto algumas vezes à mesma palavra. Não porque queira parecer mais inteligente, mas porque respeito quem vai me ler.
A língua portuguesa, para mim, é uma casa.
E quando convido alguém para entrar, gosto de deixá-la arrumada.
Não precisa ser uma casa luxuosa. Não precisa ter móveis raros, nem objetos que ninguém conhece. Precisa apenas ser acolhedora. Precisa permitir que quem chega encontre espaço para sentar, respirar e permanecer.
É assim que penso a escrita.
Quero o português limpo, mas não distante. Quero a concordância correta, mas sem transformar a leitura numa prova. Quero palavras bonitas, mas que não escondam o sentimento atrás delas.
Porque escrever bonito não é escrever complicado.
Às vezes, a palavra mais simples é justamente a que consegue tocar mais fundo.
E talvez seja por isso que eu observe tanto quando leio. Não apenas o que foi dito, mas como foi dito. Onde a frase respira. Onde ela termina. Onde uma vírgula muda o sentido. Onde um parágrafo cria uma pausa necessária para que o pensamento possa caminhar.
Quem escreve coloca um pouco de si no papel.
Eu coloco também o meu cuidado.
Não escrevo para os intelectuais. Escrevo para gente. Para quem tem pressa e para quem tem tempo. Para quem conhece todas as regras e para quem simplesmente gosta de ler. Para quem percebe a vírgula e para quem só percebe a emoção.
Se alguém encontrar um erro, que encontre.
Somos todos feitos de imperfeições.
Mas, enquanto estiver escrevendo, continuarei cuidando das minhas palavras como quem cuida de uma janela antes da chuva: limpando o vidro, retirando as marcas, deixando o olhar atravessar.
Porque escrever, para mim, é mais do que juntar palavras.
É uma forma de dizer ao outro:
Eu pensei em você antes de colocar isso no mundo.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

