De uma hora para outra, o céu de Maceió fecha.
É como se alguém apagasse a luz do dia e, sem pedir licença, despejasse sobre a cidade uma quantidade de água que parece não ter fim. Chove muito. Chove forte. Chove daquele jeito que faz a gente olhar pela janela e agradecer por estar dentro de casa, protegido, ouvindo o barulho da chuva no telhado e vendo as ruas desaparecerem atrás de uma cortina d’água.
Mas nem todo mundo tem uma janela para olhar.
Enquanto a chuva cai, penso nas pessoas que estão nas ruas. Nos trabalhadores que ainda precisam chegar em casa. Em quem espera um ônibus debaixo de uma marquise. Em quem mora em uma área onde cada temporal traz medo. Em quem já perdeu móveis, documentos, alimentos e, algumas vezes, até a própria casa depois de uma chuva dessas.
A mesma água que para alguns tem cheiro de terra molhada e traz uma sensação quase poética, para outros pode significar desespero.
É aí que a chuva deixa de ser apenas um fenômeno da natureza e passa a ser também um retrato da cidade.
Maceió mudou. Cresceu. Recebeu obras, ganhou novos espaços, viu avenidas serem transformadas e regiões inteiras passarem por intervenções. Há, sem dúvida, muita coisa que foi feita.
Mas uma cidade nunca fica pronta.
Ela precisa ser cuidada todos os dias.
E talvez seja justamente na chuva que descobrimos onde estão as nossas maiores fragilidades. O bueiro que não dá conta. A rua que rapidamente vira rio. O canal que transborda. A encosta que assusta. A família que precisa deixar a própria casa porque permanecer ali se tornou perigoso.
Não basta construir uma cidade bonita para ser vista.
É preciso construir uma cidade segura para ser vivida.
Maceió precisa urgentemente de cuidado. Cuidado com a drenagem, com as áreas de risco, com a ocupação urbana, com o meio ambiente e, acima de tudo, com as pessoas.
Porque nenhuma obra é realmente grandiosa se não conseguir alcançar justamente quem mais precisa dela.
A chuva continuará chegando. Não temos como impedir o céu de escurecer, o vento de soprar ou a água de cair.
O que podemos fazer é preparar a cidade para recebê-la.
E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem administra uma cidade: não esperar que a chuva revele os problemas para lembrar que eles existem.
Hoje, enquanto Maceió recebe mais uma tempestade, há quem possa simplesmente fechar a janela e esperar passar.
E há quem esteja contando os minutos para que a água não entre pela porta.
A chuva é a mesma.
Mas ela nunca cai igual para todos.
E é justamente por isso que, quando o céu fechar novamente, precisamos olhar para além da chuva.
Precisamos olhar para Maceió.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

