“Fui batizada por um pombo: Coisa de urbanidade.”


Sexta-feira. Aquele dia em que a pessoa já acorda trabalhando só com 30% da alma e o restante esperando o fim do expediente. Eu estava na porta do trabalho, observando o movimento da rua, tentando respirar um pouco entre uma tarefa e outra, quando decidi filosofar sobre a vida.
Erro meu.
Porque parece que o universo não gosta quando a gente pensa demais.
O céu estava tranquilo. O movimento seguia normal. Gente passando, carro buzinando, vendedor gritando promoção, e eu ali, parada, apenas existindo. Foi quando senti algo cair.
Uma coisa rápida. Precisa. Gelada. Cruel.
Na hora, olhei para cima, já sabendo.
Lá estava ele.
O pombo.
Me encarando com a tranquilidade de quem acabou de pagar uma dívida antiga.
E eu parada, indignada, olhando para aquela ave urbana que sequer demonstrou arrependimento. O pombo simplesmente seguiu sua vida. Nem um pedido de desculpas. Nem uma consideração. Nada.
Pior é que dizem que isso dá sorte.
Ora, se aquilo era sorte, imagine o azar vindo de caminhão.
O mais humilhante não foi nem o acontecimento. Foi a reação das pessoas. Sempre aparece alguém tentando consolar:
— “Relaxa, isso é sorte!”
Sorte pra quem? Pro pombo, que saiu mais leve.
Teve gente rindo escondido. Teve quem riu na minha cara mesmo. E teve uma senhora que olhou para mim com pena, como quem vê alguém sendo derrotado pela própria existência.
Naquele momento eu percebi uma coisa: a vida adulta é exatamente isso. Você paga boleto, trabalha, tenta manter a dignidade… e, de repente, um pombo escolhe você como alvo oficial da sexta-feira.
E o mais impressionante é a precisão deles. Porque carro passando tem milhares. Poste tem dezenas. Chão vazio então, nem se fala. Mas não. O cidadão alado calcula vento, distância, trajetória e pensa:
“É naquela ali.”
Hoje eu entendo que existem dias em que tudo dá errado. E existem dias em que até os pombos participam do complô.
Mas quer saber? Sobrevivi.
Limpei a roupa, lavei o orgulho e continuei o expediente, porque brasileiro não tem tempo nem de sofrer em paz.
Só fiquei com uma preocupação.
Vai que o pombo volta segunda…kkkk

 

*Duse Leite

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