Sou do tempo em que título de eleitor não era apenas um documento guardado na gaveta. Era quase uma certidão de pertencimento. Um símbolo de responsabilidade. Um compromisso silencioso entre o cidadão e o país.
Lembro dos meus pais falando com uma seriedade quase sagrada sobre o dia da votação. Não era um domingo qualquer. Era dia de cumprir dever. E dever, naquele tempo, tinha peso, tinha respeito, tinha roupa escolhida com cuidado.
“Vista sua melhor roupa”, diziam eles.
E a gente vestia mesmo.
Os homens passavam brilhantina no cabelo, engomavam a camisa. As mulheres escolhiam vestidos bonitos, sandálias limpas, perfume suave. Parecia até dia de missa ou festa importante.
Porque votar era isso: um acontecimento importante.
As filas eram longas, mas ninguém reclamava tanto. Havia conversa, encontro de vizinhos, gente se cumprimentando na porta da escola onde funcionava a seção eleitoral. O título ia guardado na bolsa como quem leva um objeto precioso. E havia orgulho naquele gesto simples de entrar na cabine e apertar os números com a consciência de que sua escolha tinha valor.
Hoje muita coisa mudou. O título virou aplicativo, biometria, tela digital. O mundo ficou rápido demais. E talvez a pressa tenha levado embora certos rituais que davam sentido às coisas.
Mas eu ainda guardo dentro de mim aquela imagem bonita dos meus pais ensinando que cidadania também se demonstra nos detalhes. Na postura. No respeito. Na compreensão de que votar não era favor para ninguém, mas um direito conquistado com luta por tantas pessoas antes de nós.
Sou desse tempo em que as pessoas acreditavam que pequenas atitudes revelavam caráter. E ir votar bem vestido não era vaidade. Era consideração pelo momento. Era dizer, sem palavras: “Eu reconheço a importância disso aqui.”
Talvez hoje muita gente ache exagero.
Mas existem lembranças que envelhecem sem perder a dignidade.
E toda vez que vejo um título de eleitor, ainda sinto um pouco daquela emoção antiga. Como se escutasse novamente a voz dos meus pais ecoando cedo pela casa:
“Se arrume direito. Hoje é dia de votar.”
Duse Leite
Funcionária pública e jornalista

