Bolsa da Mulher


Há muito tempo eu cheguei à conclusão de que a bolsa de uma mulher não é um acessório.

É uma instituição.

Enquanto algumas pessoas saem de casa apenas com carteira, celular e chave, nós saímos preparadas para enfrentar qualquer situação que o destino resolva colocar em nosso caminho.

A minha bolsa, por exemplo, não parece uma bolsa.

Parece uma mudança.

Outro dia resolvi procurar uma coisa simples lá dentro. Não lembro mais o que era. O fato é que, quando comecei a procurar, encontrei tantas outras coisas que acabei esquecendo o motivo da busca.

Foi uma verdadeira expedição arqueológica.

Primeiro apareceram as carteiras.

Sim, no plural.

Porque uma mulher nunca tem apenas uma carteira. Tem a carteira atual, a carteira que deixou de usar mas ainda guarda alguma coisa importante, e aquela outra que continua ali porque um dia poderá ser útil.

Depois encontrei uma bolsinha dentro da bolsa.

Porque toda mulher sabe que uma bolsa organizada precisa ter outras bolsas menores lá dentro.

Na bolsinha havia um espelho, curativos, grampos, uma pinça de tirar sobrancelha e vários batons.

Batom novo.

Batom pouco usado.

Batom que eu não uso.

E batom tão antigo que já deveria ter recebido aposentadoria por tempo de serviço.

Mas continuam todos ali, ocupando seus lugares com a mesma dignidade.

Mais adiante surgiu um vidrinho de perfume daqueles de emergência.

Não sei exatamente quando foi colocado ali.

Talvez meses atrás.

Talvez anos.

Mas permanecia firme em sua função, pronto para qualquer eventualidade social que exigisse uma rápida renovação da elegância.

Continuei a exploração.

Vieram os documentos.

Os documentos importantes.

Os muito importantes.

Os que um dia foram importantes.

Os comprovantes de pagamento.

As contas pagas.

As contas a pagar.

E alguns papéis cuja utilidade já não consigo explicar, mas que certamente tiveram uma razão muito séria para serem guardados.

Porque existe uma frase que toda mulher conhece:

“Vou guardar. Vai que eu preciso.”

E assim nascem os arquivos permanentes das bolsas femininas.

Mas os verdadeiros tesouros não são os documentos.

São os bilhetinhos.

Ah, os bilhetinhos…

Esses desafiam qualquer tentativa de organização.

Bilhetes recebidos há anos.

Recadinhos escritos às pressas.

Palavras simples que ficaram guardadas porque, de algum modo, tocaram o coração.

A verdade é que certas lembranças ocupam pouco espaço no papel e muito espaço na vida.

Foi então que encontrei as fotografias.

Retratos das minhas netas.

Fotos 3×4 das minhas filhas.

Pequenas imagens que carregam uma quantidade imensa de amor.

E lá no meio de tudo, quase escondido, apareceu um tercinho.

Silencioso.

Discreto.

Acompanhando meus dias sem fazer alarde, como fazem as coisas que realmente importam.

Nesse momento percebi que minha bolsa não guarda apenas objetos.

Ela guarda histórias.

Cada item está ligado a uma lembrança, a uma pessoa, a um compromisso ou a uma fase da vida.

Por isso é tão difícil esvaziá-la.

Porque, sem perceber, vamos colocando ali muito mais do que coisas.

Vamos colocando pedaços de nós mesmas.

Confesso que, para quem olha de fora, minha bolsa talvez pareça exageradamente cheia.

Talvez até pareça um saco sem fundo.

Mas eu prefiro pensar que ela é um retrato fiel da vida.

Um lugar onde convivem passado e presente, necessidade e afeto, organização e um certo caos cuidadosamente administrado.

E se algum dia alguém me pedir para reduzir o conteúdo da bolsa ao estritamente necessário, provavelmente vou concordar.

Vou prometer que farei isso.

Vou até abrir a bolsa e começar a organizar.

Mas, quando encontrar os bilhetinhos, as fotografias, o tercinho, o perfume, a pinça e os velhos batons que já me acompanham há tanto tempo, certamente vou guardá-los novamente.

Porque algumas coisas não ficam na bolsa por necessidade.

Ficam por carinho.

E carinho, como toda mulher sabe, nunca ocupa espaço demais. 🌷📖

 

Eleonora Duse de Pontes Leite

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