Namoro com a torneira


Ultimamente eu tenho vivido um relacionamento complicado. Desses modernos, cheios de expectativa, ansiedade, desencontros e sofrimento emocional.
Meu relacionamento com a água.

Aqui em casa já existe praticamente um romance entre eu, a torneira e a bomba d’água. E como todo relacionamento mal resolvido, ele acontece principalmente durante a madrugada.

Porque é justamente de madrugada que começa a esperança.

A gente dorme já meio alerta. Qualquer barulhinho diferente vira motivo para levantar da cama. Abro os olhos, olho para o relógio, caminho silenciosamente pela casa e vou até a torneira, naquela expectativa quase apaixonada.

Abro devagar.

Nada.

Só aquele “suspiro” do cano, como quem promete e não cumpre.

Volto para a cama frustrada, mas sem desistir. Porque quem ama acredita. Passa meia hora e lá vou eu novamente. Acendo a luz, ligo a bomba, observo os canos, escuto os barulhos da caixa d’água como quem espera sinais de um grande amor.

Às vezes cai uma gota.

E naquela situação em que me encontro, uma gota já ilude a pessoa.

Pronto. A esperança renasce.

A bomba trabalha, eu acompanho tudo atentamente, quase numa parceria sentimental. É um namoro mesmo. Tem espera, ansiedade, decepção e reconciliação.

Mas essa semana o relacionamento entrou em crise séria.

A água simplesmente não veio.

Não teve encontro na madrugada. Não teve paquera na torneira. Não teve barulho nos canos. Não teve emoção. Nem um pingo para alimentar a ilusão.

Foi um abandono completo.

E a responsável por esse drama hídrico-afetivo atende pelo nome de BRK, a concessionária que conseguiu transformar moradores em vigilantes noturnos de torneira.

Hoje o cidadão não dorme mais profundamente. Ele cochila em estado de atenção. Qualquer ruído parece milagre hidráulico.

A verdade é que nunca pensei que chegaria numa fase da vida em que ouvir água subindo na caixa me daria mais felicidade do que muito gesto romântico por aí.

Porque quem passa dias sem água aprende a valorizar coisas simples.

Um fiozinho na torneira já emociona. Um banho completo vira vitória pessoal. E caixa d’água cheia, minha gente, já é sinal de que Deus realmente visitou a residência.

Enquanto isso, sigo aqui nesse relacionamento abusivo.

Eu espero. A água promete. A BRK desaparece. E a bomba… ah, a bomba continua sendo a única que trabalha seriamente nessa relação.

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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