O domingo é um sujeito muito bem tratado.
Chega à mesa com pompa, acompanhado de lasanha, churrasco, macarronada, batatinha frita, farofa de alho e uma salada majestosa, dessas que parecem ter sido penteadas antes de chegar ao prato. Couve, pepino, repolho, cenoura, azeite do bom, temperos caprichados. Tudo tem outro sabor no domingo.
E ainda tem sobremesa.
Pudim. Torta. Aquele docinho maravilhoso que chega depois do almoço só para lembrar que a vida, às vezes, sabe ser muito generosa.
Mas aí chega a segunda-feira.
E a segunda não traz nada.
Ela abre a geladeira e encontra os potinhos do sábado e do domingo, todos muito bem organizados, esperando a vez de entrar no micro-ondas. É um pouquinho disso, um pouquinho daquilo. A comida nem está ruim. Afinal, foi comida de rei no fim de semana. Mas já não tem o mesmo encanto.
E sobremesa?
Nem pensar.
A sobremesa já cumpriu sua missão. Desapareceu no domingo, provavelmente antes mesmo de alguém perguntar se podia repetir.
A segunda-feira é assim: séria, apressada, cheia de compromissos. É dia de trabalhar, resolver, correr, cumprir horário. Parece até que alguém decretou que, de segunda a sexta, a vida precisa comer em potinho.
Curioso é que a gente aceita isso com uma naturalidade impressionante.
Passa a semana inteira esperando o sábado.
Esperando dormir um pouco mais. Esperando almoçar sem pressa. Esperando uma comida diferente. Esperando a sobremesa. Esperando o céu azul, o sol, a conversa demorada, a sensação de que finalmente temos tempo.
E eu fico pensando: por que é que a gente faz isso?
Por que o melhor almoço precisa esperar o domingo?
Por que o pudim não pode aparecer numa terça-feira?
Por que uma mesa bonita precisa de ocasião?
Por que a gente só se permite aquele pequeno luxo de viver bem quando o calendário diz que é fim de semana?
Talvez a vida esteja cheia de segundas-feiras porque nós mesmos fomos colocando o prazer sempre para depois.
Depois eu compro.
Depois eu viajo.
Depois eu descanso.
Depois eu faço aquela comida.
Depois eu tomo aquele vinho.
Depois eu vejo aquele filme.
Depois eu vivo.
E, quando chega o sábado, a gente tenta recuperar tudo de uma vez.
Talvez não seja possível transformar todos os dias em domingo. O trabalho continua, os boletos continuam, o despertador continua impiedoso.
Mas talvez dê para colocar um pouquinho de domingo dentro da segunda-feira.
Uma mesa mais bonita.
Uma comida feita com vontade.
Uma sobremesa numa quarta-feira, só porque sim.
Um café tomado sem pressa.
Uma música enquanto se cozinha.
Um céu azul observado por alguns minutos antes de entrar no trabalho.
Porque, no fim das contas, talvez a felicidade não precise esperar o calendário virar.
Talvez a gente possa, de vez em quando, abrir a geladeira numa segunda-feira, olhar para aqueles potinhos e dizer:
— Hoje não. Hoje eu quero uma coisa diferente.
E fazer.
Porque sábado e domingo são maravilhosos, é verdade.
Mas a vida inteira não pode caber em dois dias.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

