Porque sempre existirá lugar


Há momentos na vida em que a gente percebe algumas coisas sem que ninguém precise dizer.

Percebe que os filhos cresceram, fizeram suas próprias escolhas, construíram suas famílias, seus círculos, seus horários, suas prioridades. Percebe também que alguns grupos foram mudando, que certas conversas já não chegam, que alguns encontros acontecem sem a nossa presença e que pessoas que um dia estiveram tão perto passaram a ocupar outro lugar.

E o mais curioso é que quase nunca existe um dia marcado para essa mudança. Ela simplesmente acontece. Devagar. Um pouco hoje, outro tanto amanhã, até que a gente olha em volta e percebe que já não está no mesmo lugar de antes.

Não digo isso como cobrança. A vida é feita de movimentos, e cada pessoa tem o direito de escolher seus caminhos. Os filhos precisam crescer. Os amigos precisam viver suas próprias histórias. Os grupos também se renovam.

A gente entende.

Só que entender não significa não sentir.

A gente sente porque esteve presente. Porque cuidou, acompanhou, ouviu, ajudou, celebrou. Porque colocou tempo, afeto e vida em determinadas relações. E quando o tempo passa, é natural que algumas funções mudem. O que nem sempre muda na mesma velocidade é o coração de quem ficou acostumado a estar por perto.

Mas talvez exista uma maturidade bonita em não transformar toda distância em mágoa.

Aprender a não perguntar quem lembrou, quem telefonou, quem chamou, quem percebeu a nossa ausência. Aprender que presença não se pede e que afeto não precisa ser medido pela frequência.

Alguns lugares simplesmente mudam de endereço.

E tudo bem.

Porque também descobri que a vida não é feita apenas dos lugares que deixamos. É feita, principalmente, dos lugares que ainda podemos encontrar.

Há pessoas novas, conversas que ainda não aconteceram, amizades que podem nascer, projetos que podem nos devolver entusiasmo, pequenos encontros que chegam sem fazer barulho e, de repente, ocupam um espaço bonito dentro da gente.

Talvez seja isso que a vida queira nos ensinar quando algumas portas parecem se fechar: não é para ficarmos diante delas perguntando por quê.

É para olhar ao redor.

Porque sempre existirá lugar.

Lugar para recomeçar, para rir, para criar, para amar, para ser lembrada e, sobretudo, para simplesmente ser.

E se algum dia eu perceber que já não caibo em determinado espaço, não precisarei sair de mim mesma para continuar pertencendo.

Vou apenas seguir.

Sem mágoa. Sem cobrança. Sem bater à porta de quem não abriu.

Porque a vida, generosa como costuma ser, sempre deixa algum cantinho esperando pela gente.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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