A Cidade Que Acorda Antes do Sol


Foto: Diário do Rio

Não é metáfora — é rotina.
Tem gente que sai de casa ainda de madrugada, quando o silêncio pesa mais que qualquer esperança. Carregam bolsas, marmitas, cansaço. Esperam ônibus, atravessam ruas, ocupam espaços que quase nunca aparecem nas fotografias bonitas da cidade.
Maceió, nesse horário, não é postal.
É movimento.
A cidade que não aparece
O 1º de maio chega com discursos prontos, homenagens ensaiadas e palavras que, de tanto repetidas, perdem o peso. Fala-se em trabalho como dignidade, como conquista — e tudo isso é verdade. Mas nem sempre é inteiro.
Porque há também o trabalho que exaure, que aperta, que não cabe nos slogans.
Há quem trabalhe muito e ainda assim não alcance o mínimo. Há quem sustente a cidade sem nunca ser visto. Há quem transforme esforço em sobrevivência, não em escolha.
O que sustenta o que parece natural
E, ainda assim, a cidade segue.
Segue porque alguém abre a porta cedo.
Porque alguém limpa, dirige, vende, constrói, atende.
Porque alguém insiste.
O trabalho, nesse sentido, não é só o que se faz — é o que sustenta o que parece natural. Mantém a engrenagem girando enquanto o resto observa.
Mas talvez o que mais diga sobre o trabalho esteja nos pequenos gestos: no café tomado às pressas, no uniforme repetido, na volta para casa quando o dia já acabou por dentro.
Uma pausa que quase nunca acontece
O 1º de maio deveria ser mais do que uma data.
Deveria ser uma pausa.
Uma pausa para olhar com atenção para quem faz a cidade existir — e para perguntar, sem respostas fáceis: que tipo de trabalho estamos celebrando?
Porque, no fim, entre o que se diz e o que se vive, existe uma distância.
E é nessa distância que mora a verdade.
No meio dessa cidade que não para, onde você se encontra: no que escolheu viver ou no que foi possível aceitar?

Duse Leite

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