O Caminhão do Lixo Deve Ter Medo da Minha Rua


Foto: Arquivo pessoal

Voltei a morar na rua onde nasci.
Confesso que esperava encontrar algumas mudanças. Afinal, o tempo passa para todo mundo. Só não imaginei que a minha rua tivesse resolvido se transformar numa reserva ecológica.
Na minha infância era tudo diferente.
De um lado morava dr. Arsênio. Do outro, um tio. Mais adiante, uma tia. Virando a esquina, outra tia. Era uma rua de gente que se conhecia, que fazia fogueira no São João, que conversava na calçada e sabia até quem estava fazendo café.
Hoje…
Hoje moro numa rua onde o mato me conhece pelo nome.
Acho até que, se eu faltar dois dias, ele manda alguém perguntar se está tudo bem.
Quando voltei, o mato estava pela altura do joelho. Não sei se aquilo era capim ou uma tentativa de reflorestamento urbano.
Comecei minha campanha.
Liguei.
Reclamei.
Insisti.
Conversei.
Pedi.
Finalmente apareceram para cortar o mato.
Fiquei feliz.
A felicidade durou exatamente o tempo de perceber que cortaram o mato… e deixaram o mato.
Foi uma limpeza moderna. O mato apenas mudou de posição.
Mas o verdadeiro protagonista da história é o caminhão do lixo.
Tenho quase certeza de que o motorista chega à esquina, reduz a velocidade, olha para a minha rua e pensa:
— Não… essa eu deixo para a semana que vem.
E vai embora.
O caminhão aparece com a mesma frequência de alguns parentes.
Só quando quer.
De preferência em aniversário, Natal ou quando resolve dar o ar da graça.
Enquanto isso, o lixo vai criando intimidade.
Já nos cumprimentamos todas as manhãs.
Os papéis resolveram fazer turismo. Quando venta, passeiam pela rua inteira. Tem saco plástico que já conhece mais o bairro do que muita gente.
Os carros também participam.
Antes passavam sobre o calçamento.
Agora passam sobre o lixo.
O barulho mudou.
É um “crec”, “ploc”, “tronc”, como se a rua tivesse criado uma escola de samba só para sacos plásticos e garrafas vazias.
E ainda aparecem os especialistas em arqueologia do lixo.
Abrem os sacos, fazem uma pesquisa detalhada e deixam tudo espalhado.
Eu gosto de colocar meu lixo em sacos pretos. Acho que lixo também tem direito à privacidade.
Ninguém precisa saber quantas bananas eu comi, quantas caixas de leite usei ou qual foi o destino daquele pote sem tampa que morava na minha cozinha.
Foi exatamente por causa dessa intimidade que aconteceu uma das cenas mais curiosas da minha vida.
Resolvi jogar fora um par de tênis velho.
No dia seguinte descobri que apenas um pé tinha ido embora.
O outro continuava em casa.
Até hoje não sei se fui eu que joguei um só ou se alguém resolveu fazer adoção parcial.
Sei apenas que existe, em algum lugar desta cidade, um cidadão procurando desesperadamente o pé direito de um tênis que ficou na minha casa.
O curioso é que hoje sou a única moradora da rua.
A única.
Talvez por isso pensem que a rua também foi embora.
Mas ela não foi.
Nem eu.
Continuo telefonando.
Continuo reclamando.
Continuo insistindo.
Porque descobri uma coisa.
Se eu não insistir, termino sendo mais um elemento do lixo.
E isso eu não aceito.
Afinal, já basta o mato me conhecer pelo nome.
Não quero que o caminhão do lixo passe um dia, olhe para mim na calçada e pergunte:
— A senhora vai junto ou fica para a próxima coleta?

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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