Outro dia percebi uma coisa curiosa: o telefone toca menos.
Não estou reclamando. Ou talvez esteja um pouquinho. Mas o fato é que houve um tempo em que meus filhos me ligavam para tudo. Absolutamente tudo.
— Mãe, onde está minha certidão de nascimento?
— Mãe, que remédio eu tomo?
— Mãe, você viu minha camisa azul?
Como se eu fosse uma mistura de cartório, farmácia e setor de achados e perdidos.
Eu sabia onde estavam os documentos, os sapatos, as chaves, os cadernos e, às vezes, até o juízo deles.
Era uma fase cansativa, confesso. Mas também era uma fase em que eu me sentia indispensável.
Aí os anos passaram.
Os filhos cresceram, aprenderam a resolver problemas, a tomar decisões e, o que é mais impressionante, a encontrar as próprias camisas.
Hoje, o telefone toca menos.
Não porque deixaram de me amar. Apenas porque aprenderam a caminhar sem precisar segurar minha mão.
O problema é que ninguém prepara as mães para essa mudança de cargo.
Passamos décadas sendo o centro de operações da família e, de repente, somos promovidas a uma função mais discreta.
Viramos conselheiras de plantão.
Consultoras eventuais.
Especialistas em ouvir.
E, em muitos casos, cuidadoras oficiais dos netos quando surge um compromisso de última hora.
Foi então que me vi procurando novas ocupações.
Um crochê aqui.
Um bordado ali.
Uma planta para cuidar.
Uma gaveta para organizar pela terceira vez.
Porque, quando a vida desacelera, a gente precisa inventar alguma confusão para não sentir falta das antigas.
Às vezes, bate uma saudade daquele tempo em que todos pareciam precisar de mim ao mesmo tempo.
Mas só às vezes.
Porque, olhando bem, foi para isso que trabalhei a vida inteira.
Toda mãe sonha em criar filhos fortes, independentes e capazes de enfrentar o mundo.
O detalhe que esquecemos é que, quando o sonho se realiza, ele vem acompanhado de um silêncio novo dentro de casa.
Um silêncio que, no começo, assusta.
Depois, ensina.
E, finalmente, acomoda-se ao nosso lado como um velho amigo.
De vez em quando, porém, o telefone toca.
Do outro lado, uma voz já adulta pergunta alguma coisa, conta uma novidade ou simplesmente diz:
— Oi, mãe.
E naquele instante descubro que nada mudou de verdade.
O telefone toca menos, é verdade.
Mas o amor continua na mesma frequência.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

