O degrau onde a poesia espera


Foto: Arquivo Pessoal

Há alguns anos, alguém escreveu numa parede uma pergunta que ainda ecoa: “Em qual degrau cabe a minha poesia?” Não era apenas um poema. Era um convite para que cada pessoa que subisse ou descesse aquela escadaria percebesse que a cidade também pode ser lida. Que um muro pode ser página. Que um degrau pode ser verso.

Hoje, ao voltar ao lugar, encontrei a mesma escadaria. Mas ela já não era exatamente a mesma. Os azulejos continuam colorindo os degraus, resistindo como quem se recusa a desaparecer.

O poema ainda permanece na parede, embora o tempo tenha apagado parte de suas letras. Bancos gastos, plantas que sobrevivem como podem e pequenos sinais de descuido revelam uma verdade silenciosa: o tempo passa para as pessoas, mas também passa para as cidades.

Nenhum espaço permanece bonito apenas porque um dia foi inaugurado. A beleza exige cuidado. A arte exige permanência. O patrimônio precisa de mãos que o defendam depois que as fotografias da inauguração deixam de ser notícia.

Talvez o maior perigo não seja a tinta desbotando nem o cimento envelhecendo. O maior perigo é quando nos acostumamos ao abandono. Quando deixamos de enxergar que aquele lugar já foi motivo de orgulho. Quando passamos pela escadaria sem ler o poema, sem olhar os degraus, sem perceber que ali existe uma história.

A poesia de Mírian Monte continua fazendo a mesma pergunta. Mas hoje ela parece ganhar outro sentido: em qual degrau deixamos nossa responsabilidade pela cidade?

Porque cidades também adoecem quando seus habitantes deixam de cuidar delas. Nenhuma obra pública se sustenta apenas com discursos. Ela precisa de manutenção, respeito e pertencimento.

Saí dali convencida de que a poesia não foi embora. Ela continua esperando. Esperando o olhar de quem ainda acredita que recuperar uma escadaria é mais do que reformar concreto. É restaurar a esperança de que os espaços públicos podem voltar a ser lugares de encontro, de beleza e de memória.

Talvez a poesia nunca tenha saído daquele lugar. Talvez sejamos nós que, correndo demais, tenhamos deixado de subir seus degraus olhando para cima.

 

Duse Leite
@duseleite – Funcionária Pública e Jornalista

Poema: ” Em qual degrau cabe a minha poesia?” De Mírian Monte

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