Há alguma coisa acontecendo conosco. E talvez o mais preocupante seja que estamos começando a achar normal aquilo que, não faz muito tempo, nos faria parar para pensar.
Acordamos e abrimos o celular. Uma guerra. Uma criança morta. Uma família destruída. Uma pessoa desaparecida. Um escândalo. Bilhões movimentados enquanto alguém não sabe como vai pagar o supermercado. Uma agressão por causa de uma opinião. Uma tragédia que dura alguns minutos na tela e depois é substituída por outra.
A gente se assusta, comenta, compartilha e segue a vida.
Até a próxima notícia.
Estamos vivendo uma época em que a informação chega mais rápido do que a nossa capacidade de compreendê-la. Sabemos de tudo um pouco e, muitas vezes, não conseguimos digerir quase nada. O mundo inteiro cabe na palma da mão, mas parece cada vez mais difícil enxergar quem está sentado ao nosso lado.
E talvez essa seja uma das grandes contradições do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes.
As redes sociais deveriam aproximar. Mas também criaram uma espécie de tribunal permanente. Todo mundo tem uma opinião. Todo mundo tem uma resposta. Todo mundo sabe quem está certo e quem está errado. E, muitas vezes, ninguém quer mais ouvir.
Discordar deixou de ser simplesmente discordar. Virou ofensa. Virou briga. Virou rompimento.
Famílias se afastam. Amigos deixam de conversar. Pessoas que se gostam passam a se olhar como adversárias por causa de política, religião, futebol ou qualquer outro assunto que encontre espaço para dividir.
E enquanto brigamos uns com os outros, há problemas muito maiores acontecendo diante dos nossos olhos.
A desigualdade continua ali. A fome continua ali. A violência continua ali. A falta de acesso à saúde continua ali. O trabalhador continua fazendo contas. O idoso continua precisando de cuidado. A juventude continua tentando descobrir que futuro terá.
E existe ainda uma coisa difícil de medir: o cansaço.
Há muita gente cansada de lutar. Cansada de esperar. Cansada de explicar que não está bem. Cansada de trabalhar muito e continuar contando moedas. Cansada de cuidar de todo mundo e não encontrar quem cuide dela.
Mas até o cansaço virou silencioso.
A pessoa sorri, responde “está tudo bem” e continua.
Talvez porque aprendemos a funcionar mesmo quando estamos quebrados por dentro.
E há outro fenômeno que merece atenção: a banalização.
Quando uma tragédia acontece uma vez, ela nos choca. Quando acontece muitas vezes, começamos a tratá-la como estatística.
É aí que mora o perigo.
Quando uma criança passa fome e isso vira apenas um número, perdemos alguma coisa. Quando uma morte violenta vira apenas mais uma manchete, perdemos alguma coisa. Quando uma pessoa pede ajuda e nossa primeira reação é perguntar o que ela fez para merecer aquilo, perdemos alguma coisa.
Pouco a pouco, vamos criando uma espécie de anestesia coletiva.
Não porque deixamos de ter coração.
Talvez porque estamos cansados demais para sentir tudo.
Mas uma sociedade não pode se acostumar completamente com o absurdo.
Exatamente: houve melhoras no Brasil, nos estados, nos números, mas nada adianta avançar nos indicadores se a gente retroceder como pessoa, como gente.
Não podemos permitir que, de tanto olhar para os problemas, o absurdo deixe de nos causar espanto e o outro deixe de nos importar. Nós somos pessoas sensíveis.
Não se trata de viver revoltado o tempo inteiro. Ninguém aguenta.
Trata-se de não perder a capacidade de se importar.
Porque, no meio de tanta notícia, tanta discussão, tanta pressa e tanta gente tentando provar que tem razão, existe uma coisa que continua sendo essencial: a nossa humanidade.
Talvez o verdadeiro desafio deste tempo não seja saber de tudo.
Talvez seja conseguir continuar sendo gente diante de tudo.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

