Quando a política pega fogo


Gente, eu já vi alguns anos de campanha eleitoral. Lembro até da primeira vez que votei, quando o voto ainda era naquele papelzinho. Já vi campanha de todo jeito: carreata, comício, santinho espalhado pela rua, gente gritando nome de candidato, promessa para todo gosto. Mas, sinceramente, nunca vi Maceió tão movimentada como agora.

É carro grande passando, adesivo para todo lado, bandeira atravessando a paisagem, pneu cantando no asfalto, gente correndo atrás de gente. Tem carro de campanha que passa tão apressado que parece estar levando alguém para tirar o pai da forca.

A cidade está fervendo. Fervendo mesmo.

E olha que eu já vivi alguns bons momentos de ano eleitoral. Já acompanhei campanha quando ainda se fazia política quase no gogó, no aperto de mão, na visita de porta em porta. Hoje parece que a campanha ganhou motor, alto-falante, adesivo gigante e uma pressa danada.

Tem carro que vem pela rua parecendo bloco carnavalesco. Tem bandeira que surge de repente e quase vira cortina na frente da nossa visão. Tem propaganda em tudo quanto é canto. E tem aquele barulho de pneu, buzina e som de campanha que faz a gente pensar se está atravessando uma avenida ou entrando numa eleição.

E não é só a rua. Ligue a televisão na propaganda eleitoral e aparece gente que, até outro dia, a maioria de nós nunca tinha ouvido falar. Alguns estreando na política e já mirando um mandato de deputado federal, como quem pula da calçada direto para o terceiro andar.

Eu fico olhando e pensando: minha gente, será que eu perdi algum capítulo?

Porque uma coisa é uma pessoa nova aparecer na política. Toda renovação precisa começar em algum lugar. Outra coisa é alguém chegar de repente querendo representar milhares de pessoas sem que a gente saiba sequer de onde veio, o que pensa, o que já fez ou o que pretende fazer.

E aí eu fico pensando: será que política virou profissão?

Porque tem gente que entra e não quer mais sair. Troca de cargo, troca de legenda, troca de discurso, mas continua ali, firme e forte. Parece que a cadeira política passou a ser patrimônio de família — e, às vezes, quase herança.

Tem político que parece ter feito um financiamento da cadeira e ainda está pagando as parcelas. Só que ninguém sabe quando termina.

E não estou dizendo que alguém precise nascer político, nem que tenha de apresentar diploma para provar que merece representar o povo. Até porque diploma nenhum garante caráter, competência ou compromisso. Universidade forma muita coisa, mas não fabrica consciência.

O que deveria existir, talvez, fosse um critério muito mais sério: preparo, responsabilidade, conhecimento da função que se pretende exercer e, acima de tudo, respeito pelo dinheiro e pela confiança do eleitor.

Porque ser eleito não deveria significar apenas ganhar uma disputa. Deveria significar estar preparado para assumir uma responsabilidade enorme.

E essa corrida toda me impressiona também pelo dinheiro que parece circular. É gente trabalhando, carro circulando, material sendo produzido, bandeira tremulando, equipe para lá e para cá. Tudo numa velocidade que parece que o mundo vai acabar no dia da eleição.

E talvez seja justamente por isso que tanta gente se pergunte: de onde vem tanto entusiasmo? De onde vem tanta disposição? E, principalmente, o que faz alguém querer tanto um cargo público?

Porque, quando a política vira profissão, sair parece muito mais difícil do que entrar.

A cidade passa. A campanha passa. O carro passa. A bandeira passa. O candidato pede o voto, promete, sorri, acena e segue adiante.

Mas nós ficamos.

Ficamos com a rua, com os problemas, com os impostos, com as promessas e com o resultado da escolha que fizemos diante da urna.

Por isso, talvez o eleitor precise olhar menos para o tamanho do adesivo e mais para o tamanho da responsabilidade.

Não precisamos de candidatos perfeitos. Precisamos de gente preparada para entender que mandato não é prêmio, não é emprego vitalício e muito menos propriedade particular.

É empréstimo.

E tem prazo para devolver.

Porque, do jeito que a coisa está, olhando Maceió fervendo desse jeito, eu já não sei se estamos vivendo uma campanha eleitoral ou uma grande temporada de “não quero largar o osso”.

E essa correria toda pelas ruas me deixa uma pergunta:
será que está tão fácil assim entrar na política — ou será que está fácil demais para quem já aprendeu a não querer sair?

 

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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