Gustavo, meu irmão


Eu nunca fiz uma homenagem a Gustavo. Talvez porque tenha me faltado coragem para transformar em palavras uma ausência que, por tantos anos, eu preferi guardar dentro de mim. Mas chegou o momento de falar dele. Não apenas da saudade que sinto, mas do homem que ele foi e do orgulho imenso que sempre tive de ser sua irmã.

Gustavo era fantástico. Um artista de mão cheia, criativo, idealista, administrador, daqueles que enxergavam possibilidades onde muita gente só via dificuldades. Tinha uma capacidade extraordinária de imaginar um projeto, dar forma a uma ideia e fazê-la acontecer. Ele pensava grande, mas sabia transformar o sonho em realidade.

Sua trajetória na cultura de Alagoas deixou marcas. Os projetos em homenagem ao 20 de novembro em União e na Restinga do Pontal da Barra, o Velas Artes, os trabalhos com o Sebrae, com as rendeiras de São

Sebastião, os projetos ligados à dança e ao teatro, seu trabalho como diretor artístico e cultural da Fundação Teatro Deodoro. Foram tantos projetos que, hoje, alguns nomes me escapam. Mas não me escapa a lembrança do brilho nos olhos das pessoas diante daquilo que ele criava.

Eu trabalhei ao lado dele em muitos desses projetos. E isso me permitiu conhecer um Gustavo que talvez poucos tenham conhecido. O homem que, nos momentos de tensão, brigava comigo e, ainda assim, me queria ao lado. Uma vez ele me perguntou quanto eu queria ganhar pelo meu trabalho. Eu respondi sem saber valorizar o que fazia. Ele então me perguntou: “Você não sabe avaliar o seu trabalho?”. Era Gustavo. Ele enxergava valor nas pessoas.

Também vi pessoas se aproximarem dele por interesse. Vi inveja, arrogância e gente tentando tirar vantagem de sua generosidade. Gustavo dava oportunidades. Acreditava nas pessoas. Era amigo de verdade. Talvez por isso nem sempre tenha percebido quando alguém não estava ao seu lado pelas mesmas razões que ele estava ao lado dos outros.

Mas havia duas pessoas que ocupavam um lugar muito especial no coração de Gustavo: nossa mãe e nosso pai.

Ele era louco pela nossa mãe. Tinha por ela um amor profundo, daqueles que não precisam de explicação. E pelo nosso pai carregava um orgulho enorme. Papai havia aberto o caminho. Havia mostrado uma estrada que Gustavo soube percorrer com suas próprias pernas, sua própria criatividade e seu próprio talento.

E havia algo bonito entre os dois: meu pai admirava Gustavo. Ficava encantado diante dos projetos que ele criava, diante da capacidade que o filho tinha de transformar uma ideia em realidade. Existia ali uma troca de orgulho. Gustavo tinha orgulho do caminho que nosso pai havia aberto, e nosso pai tinha orgulho do homem e do artista que o filho havia se tornado.

Talvez parte da força de Gustavo viesse justamente dessa história que começou antes dele.

Mas eu também conheci o Gustavo que não estava nos grandes eventos.

O meu irmão.

É desse Gustavo que sinto uma falta que não sei explicar. Do companheiro de viagens, do amigo, daquele homem de riso tímido e bonito. Gustavo não era de gargalhar. Seu riso era quase contido, mas era um riso que eu reconheceria em qualquer lugar.

Lembro do cabelo comprido e do rabo de cavalo que papai não gostava. Um dia Gustavo apareceu de cabelo cortado, e eu achei tão bonito. Lembro das camisas que ele gostava de usar, uma sobre a outra. Lembro da casa dele, da pia cheia de pratos, da cama que ele não arrumava porque dizia: “Pra quê? Eu vou dormir mais tarde”. E eu chegava, arrumava tudo, deixava a casa em ordem. Depois ele ligava: “Eu sei que você já esteve aqui”.

É dessas pequenas coisas que a saudade também é feita.

Gustavo e eu éramos tão unidos que, quando um saía sozinho, alguém logo perguntava: “Cadê a Duse?”. Quando eu saía, perguntavam: “Cadê o Gustavo?”. Éramos uma presença constante na vida um do outro.

Viajamos, trabalhamos, rimos, brigamos. E, mesmo depois das brigas, estávamos juntos outra vez.

Eu me orgulho de ter sido sua irmã.

Tenho orgulho do artista que ele foi, do administrador que foi, da criatividade que parecia não ter fim. Muitas vezes eu olhava para Gustavo e pensava no tamanho da força que existia naquele homem. Ele tinha ideias, sonhos, projetos. Parecia que, até dormindo, sua cabeça continuava criando.

Mas tenho orgulho também do meu irmão simplesmente por ser Gustavo. Por amar nossa mãe como amava. Por carregar com tanto orgulho a história do nosso pai. Por ser tão ligado às irmãs. Por ter um coração imenso. Por ser bonito por dentro e por fora. Por ter sido capaz de deixar tantas pessoas apaixonadas por aquilo que fazia.

Depois que Gustavo se foi, alguma coisa se desarrumou dentro da nossa família. A vida continuou, como sempre continua, mas nunca mais fomos exatamente os mesmos. A alegria de estarmos juntos perdeu alguma coisa. Faltou uma presença. Faltou uma voz. Faltou aquele homem que, durante tanto tempo, esteve tão perto de mim que parecia impossível imaginar a vida sem ele.

Hoje, tantos anos depois, eu finalmente consigo dizer o que talvez nunca tenha dito da maneira que deveria:

Gustavo, eu tive muito orgulho de você.

Orgulho de ser sua irmã. Orgulho de ter caminhado ao seu lado. Orgulho de ter trabalhado com você, viajado com você, brigado com você e, sobretudo, amado você.

Você deixou sua marca na cultura de Alagoas. Deixou projetos, ideias, histórias e lembranças. Mas deixou também uma marca muito mais profunda em mim.

A marca de um irmão que foi, por muitos anos, meu companheiro de vida.

E é por isso que, quando perguntam onde está Gustavo, eu não sei responder.

Porque, para mim, ele continua em tantos lugares.

Nos projetos que criou. Na história que recebeu do nosso pai e transformou à sua maneira. No amor que tinha pela nossa mãe. Nas histórias que ainda conto. Na nossa família. Na cultura de Alagoas. E, principalmente, em mim.

Esse é o meu irmão.

Esse é Gustavo.

E esta é, finalmente, a homenagem que eu devia a ele.

 

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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