Há coisas que nossos pais nos ensinam sem jamais se sentarem diante de nós para ensinar.
Entram na gente devagar. No colo. No jeito de falar. No modo de olhar uma paisagem. Na maneira de atravessar um dia difícil. Em uma palavra que fica ecoando sem que saibamos, naquele momento, que um dia ela será necessária.
Meus pais me ensinaram muitas coisas.
Mas, entre todas elas, existe uma que talvez seja a mais bonita:
eles me ensinaram a olhar.
Meu pai tinha um encantamento pelo mundo. Foi ele quem me mostrou que o mar não era apenas água diante dos olhos. Era horizonte. Era movimento. Era silêncio e força. Era uma imensidão capaz de fazer a gente esquecer, por alguns instantes, de si mesmo.
Com ele aprendi a reparar nos rios, nas cachoeiras, no verde das árvores, na luz atravessando as folhas, no céu mudando de cor no fim da tarde.
Aprendi a olhar para as estrelas.
E talvez tenha sido ali, olhando para aquela imensidão pontilhada de luzes, que comecei a compreender que a beleza não está apenas nas coisas grandiosas.
Ela está no modo como a gente olha para elas.
Meu pai já se foi.
Mas há pessoas que partem sem realmente ir embora.
Eu ainda entro em contato com ele quando preciso. Não é religião. Não é espiritismo. Não é uma tentativa de explicar o que não precisa ser explicado.
É uma ligação.
É a conversa silenciosa que o amor continua tendo quando a presença já não pode acontecer.
Meu pai continua em mim.
Às vezes, numa lembrança.
Às vezes, numa paisagem.
Às vezes, numa frase.
E, algumas vezes, simplesmente no silêncio.
Ele me chamava de Duquesa. “ Duse minha filha, Duquesa…” Ainda consigo ouvir.
Uma vez, perguntou:
— Se eu me separasse da sua mãe, com quem você ficaria?
Eu respondi sem hesitar:
— Com a minha mãe.
Porque minha mãe sempre foi para mim um lugar de tranquilidade.
Mas hoje eu percebo que fui injusta se resumisse minha mãe apenas à força.
Minha mãe também me ensinou a beleza.
Uma beleza diferente.
Mais silenciosa.
Mais profunda.
Está na voz dela, que mesmo quando me repreende carrega uma espécie de paz. Está na maneira própria como ela pensa, nas palavras que às vezes me contrariam, nas verdades que por vezes me aborrecem, mas que quase sempre vêm acompanhadas de uma serenidade que eu admiro.
Minha mãe tem uma maneira muito particular de enxergar a vida.
E há poesia nisso.
Uma poesia que não precisa de versos.
Está no jeito como ela fala. No modo como olha. Na calma com que enfrenta as coisas. Na capacidade de permanecer inteira diante do que poderia quebrá-la.
Ela é um ser especial.
E talvez eu tenha demorado para compreender que a beleza que meu pai me ensinou a procurar nas paisagens minha mãe também carregava dentro dela.
Meu pai me mostrou a beleza do mundo.
Minha mãe me mostrou a beleza de existir dentro dele.
Ele me ensinou a contemplar.
Ela me ensinou a permanecer.
E os dois, cada um à sua maneira, me ensinaram a não passar pela vida distraída.
Há alguns dias, um amigo do meu pai me contou que, muitas vezes, ele falava de mim. Dizia do amor, do carinho, da admiração que sentia por mim.
Aquilo me tocou profundamente.
Porque talvez meu pai tivesse uma maneira de amar que nem sempre conseguíamos compreender.
Mas o amor estava lá.
Estava.
E ouvir aquilo tantos anos depois foi como receber uma carta que havia sido escrita há muito tempo e só agora chegara às minhas mãos.
Guardei.
Porque há palavras que chegam tarde, mas chegam na hora certa.
Hoje, quando penso nos dois, não penso apenas naquilo que me deram.
Penso naquilo que fizeram de mim.
Penso no colo.
No embalo.
Nas mãos que seguraram as minhas quando eu ainda não sabia andar.
Penso nas vezes em que me mostraram o caminho, mesmo quando eu não sabia para onde estava indo.
E penso nas asas.
Porque pais também precisam saber a hora de abrir as mãos.
Eles me pegaram no colo.
Me embalaram.
Me mostraram o caminho.
E me deram asas.
Talvez seja isso que eu tenha recebido de mais precioso:
não apenas a vida, mas um jeito de enxergá-la.
Por isso sou profundamente grata aos dois.
Ao meu pai, que colocou encantamento nos meus olhos e ainda hoje, de algum lugar dentro de mim, continua me ensinando a olhar.
À minha mãe, que colocou serenidade na minha voz, força no meu coração e beleza no meu modo de existir.
E talvez seja por isso que, até hoje, quando encontro uma paisagem bonita, alguma coisa dentro de mim pare.
Eu olho.
E agradeço.
Porque, de alguma maneira, ainda estou vendo o mundo através dos olhos que eles me ensinaram a abrir.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

