O Mestre


Foto: Arquivo Pessoal

Meu pai nunca me deu uma aula formal de escrita.

Nunca me sentou diante de uma folha em branco para explicar onde cabia uma vírgula, como se construía uma crônica ou qual era o segredo para prender a atenção de um leitor. O que ele fez foi muito maior do que isso. Ele me ensinou vivendo.

Nossa casa era uma sala de aula sem quadro-negro. Bastava ele começar uma conversa ou abrir uma folha de papel para ler uma de suas crônicas que, naturalmente, todos se aproximavam. Gustavo, Karina, Natália, eu… cada um aprendia à sua maneira. Meu pai distribuía conhecimento sem perceber. Era um homem de inteligência rara, apaixonado pelos livros, curioso sobre o mundo e profundamente sensível às pessoas. Conseguia transformar um fato aparentemente sem importância em uma história que permanecia conosco por muito tempo.

Eu gostava, principalmente, de ouvi-lo ler.

As palavras ganhavam ritmo, intenção, humor. As pausas eram tão importantes quanto as frases. Havia música na sua leitura. Hoje, um amigo jornalista costuma dizer que poucas pessoas conseguem dar tanta entonação a um texto quanto eu. Sempre sorrio quando ouço isso. Não considero um elogio apenas a mim. É uma homenagem involuntária ao meu mestre.

Minha mãe, que sempre viveu o teatro com a alma inteira, ensinou outra lição que jamais esqueci. Ela dizia que ator não decora texto. Ator estuda o texto. Só depois de compreendê-lo profundamente é que consegue interpretá-lo com verdade.

Talvez por isso eu nunca tenha conseguido apenas ler o que escrevo. Preciso sentir cada palavra, descobrir suas inflexões, entender seus silêncios. A escrita e a leitura, para mim, sempre caminharam juntas.

Com o passar dos anos, percebi que herdei do meu pai muito mais do que o gosto pelas palavras. Herdei o olhar.

Quando escrevo sobre uma mudança de casa, sobre a vizinha do apartamento, sobre um caminhão do lixo que não passa, sobre uma torneira insistente ou até sobre um simples palito de caixa de fósforos, descubro que estou fazendo exatamente o que ele fazia: encontrando a grandeza escondida nas pequenas coisas.

Muitas vezes me perguntam por que escrevo sobre tantos assuntos. Política, cultura, cotidiano, memórias, sentimentos. A resposta talvez esteja aqui. Meu pai nunca limitou a vida a um único tema. A vida era o seu assunto. E a vida nunca foi feita de uma única página.

Ele teve muitos alunos.

Ensinou a mim, ensinou a Gustavo, ensinou a Karina, deixou marcas em Natália e em tantas outras pessoas que tiveram o privilégio de conviver com ele. Alguns aprenderam ouvindo seus conselhos. Outros, apenas observando seu jeito de viver e de escrever.

Quanto a mim, continuo aprendendo.

Porque os verdadeiros mestres nunca terminam de ensinar. Permanecem vivos em cada gesto, em cada frase e em cada lembrança que nos ajuda a seguir adiante.

Se fui uma boa aluna, não cabe a mim responder.

O bom aluno não é aquele que escreve igual ao mestre. É aquele que honra o que aprendeu e encontra a própria voz.

Passei a vida observando meu pai, aprendendo com seu humor, sua inteligência, sua generosidade e seu modo tão singular de enxergar o mundo. Nunca quis ser uma cópia dele. Quis apenas ser digna dos ensinamentos que recebi.

Hoje, quando termino uma crônica, quando encontro poesia onde quase ninguém procura ou quando descubro humanidade nas coisas mais simples do cotidiano, sinto que uma parte dele continua escrevendo através de mim.

E gosto de imaginar que, depois de ler estas linhas, ele fecharia o papel, abriria aquele sorriso discreto que eu conhecia tão bem e diria apenas:
— Duse, minha filha… você aprendeu.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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