Houve um tempo em que a vida acontecia do lado de fora da casa.
Ao cair da tarde, as portas se abriam, as cadeiras saíam para a calçada e os vizinhos iam chegando sem convite, sem hora marcada e sem cerimônia. Bastava o frescor da noite começar a aparecer para que as conversas tomassem conta da rua.
As crianças brincavam despreocupadas. Corriam de um lado para o outro, inventavam jogos, andavam de bicicleta e transformavam qualquer pedaço de chão em cenário para aventuras.
Enquanto isso, os adultos colocavam a conversa em dia, comentavam as notícias, trocavam receitas, falavam da vida e, muitas vezes, resolviam os problemas do mundo sem sair da calçada.
Quando penso nesse tempo, porém, não me lembro apenas das cadeiras.
Lembro-me dos sons.
Lembro-me dos vendedores que passavam anunciando suas mercadorias. O pipoqueiro, o algodão-doce, o quebra-queixo. Cada um tinha seu jeito próprio de chamar a atenção, e nós, crianças, aprendíamos a reconhecer de longe aqueles anúncios que pareciam fazer parte da trilha sonora da tarde.
Mas a lembrança mais bonita não vem dos vendedores.
Vem da minha mãe.
Vejo a cena com uma clareza que o tempo não conseguiu apagar.
Na porta de casa, eu e meu irmão sentados em nossas pequenas cadeiras de criança. Diante de nós, um prato simples de arroz com ovo. Minha mãe, com toda a paciência e todo o amor do mundo, alternava as colheradas. Uma para mim. Outra para ele. Mais uma para mim. Mais uma para ele.
Era uma refeição simples.
Talvez simples demais para os padrões de hoje.
Mas, para nós, era um banquete de carinho.
Naquele momento não havia pressa, nem distrações. Não existiam celulares, notificações ou telas disputando nossa atenção. Existia apenas a presença. A presença da mãe, a companhia do irmão, o movimento tranquilo da rua e a segurança de saber que o mundo estava exatamente onde deveria estar.
Hoje compreendo que aquelas colheradas alimentavam muito mais do que a fome.
Elas alimentavam a memória.
Naquele tempo ninguém falava em vínculos afetivos, convivência familiar ou construção de memórias. As pessoas simplesmente viviam. E, sem perceber, deixavam gravados em nossos corações momentos que sobreviveriam aos anos, às mudanças e às distâncias.
As cadeiras da calçada eram mais do que móveis colocados do lado de fora da casa.
Eram pontos de encontro.
Eram espaços de convivência.
Eram pequenas pontes entre as pessoas.
Nelas compartilhavam-se alegrias, preocupações, receitas, conselhos e histórias. Nelas nasciam amizades, fortaleciam-se laços e aprendia-se, sem perceber, o valor da comunidade.
O mundo mudou. As ruas ficaram mais silenciosas. As cadeiras desapareceram de muitas calçadas. Hoje conversamos com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância, mas às vezes mal conhecemos quem mora ao nosso lado.
Ganhamos muitas facilidades, é verdade. Mas algumas cenas ficaram guardadas apenas na lembrança.
Ainda assim, basta fechar os olhos para que elas retornem.
E eu volto a ser aquela criança sentada na porta de casa. Escuto ao longe o chamado do pipoqueiro. Vejo a rua movimentada pelos vizinhos. Sinto a brisa do fim da tarde. E, diante de mim, minha mãe dividindo um prato de arroz com ovo entre dois filhos que talvez não soubessem, naquela hora, que estavam vivendo um dos momentos mais preciosos de suas vidas.
Hoje, quando passo por ruas silenciosas e vejo as calçadas vazias, percebo que sinto saudade de muito mais do que um tempo. Sinto saudade das pessoas que fizeram aquele tempo existir.
Sinto saudade das vozes, dos risos, dos encontros sem pressa e da simplicidade que preenchia os dias.
E entre todas as lembranças que guardo daquelas tardes, nenhuma é mais preciosa do que a imagem de minha mãe, com um prato de arroz com ovo nas mãos, alimentando dois filhos e, sem saber, alimentando também as memórias que os acompanhariam por toda a vida.
Porque há lembranças que o tempo não envelhece.
Ao contrário.
Quanto mais os anos passam, mais elas nos alimentam.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

