Dez Dias de Seca e um Banho de Esperança


Nunca pensei que um dia fosse desenvolver uma relação tão íntima com um balde.

Nem que passaria a olhar para uma garrafa de água mineral com o mesmo respeito que se dedica a uma joia rara.

Mas a vida é uma caixa de surpresas, e a minha veio na forma de dez dias sem água.

Dez dias.

Não foram dez horas. Não foram dois dias. Foram dez longos dias de torneiras silenciosas, chuveiros deprimidos e caixas d’água que pareciam desertos em miniatura.

Aqui em casa, o banho deixou de ser banho e passou a ser uma atividade artesanal.

Enche a cuia. Derrama um pouco. Economiza. Enche de novo. Derrama mais um pouco.

A essa altura, já somos praticamente patrimônio cultural da humanidade na categoria “técnicas ancestrais de sobrevivência”.

Tomamos banho de água mineral.

Sim, água mineral.

Se alguém me dissesse isso há alguns anos, eu imaginaria uma cena de luxo, spa, tratamentos sofisticados.

A realidade é bem diferente.

A pele pode até estar mais lisa, mas a sensação é a de quem saiu do banho devendo metade da limpeza para outro dia.

O perfume passou a trabalhar em regime de plantão permanente.

Tomamos mais banho de perfume do que de água.

E, claro, todos os dias existe o ritual sagrado da ligação para a concessionária.

A ligação começa sempre da mesma forma.

— CPF?
Informo.

— Nome completo?
Informo.

— Endereço?
Informo.

— Bairro?
Informo.

— Rua?
Informo.

— Número?
Informo.

Às vezes tenho vontade de perguntar se não querem também o nome dos meus avós, a certidão de batismo e o histórico escolar da terceira série.

Depois de responder a tudo, vem o grande prêmio.

A informação.
— Senhora, devido a uma manutenção emergencial…

Emergencial é uma palavra interessante.

Porque dura dez dias.

Já ouvi tantas versões dessa manutenção que estou começando a imaginar uma obra faraônica acontecendo debaixo da cidade.

Talvez estejam construindo um novo Rio São Francisco.

Talvez estejam cavando um canal até Marte.

Vai saber.

Outro dia, uma atendente me disse com admirável confiança:

— A água já deve estar na sua torneira.

Olhei para a torneira.

A torneira olhou para mim.

Nenhuma das duas tinha notícia da água.

Em outra ligação, ouvi:
— Está prevista para chegar entre 18 e 19 horas.

Eram 17h50.

Passei a próxima hora observando a torneira com a expectativa de quem espera a chegada de um parente querido no aeroporto.

Dezenove horas.

Nada.

Vinte horas.

Nada.

Vinte e uma.

Nem um pingo.

A única coisa que chegou pontualmente foi a minha irritação.

Hoje liguei novamente.

Atendeu outra moça.

Coitada.

Ela não tem culpa de nada.

Mas depois de dez dias sem água, a gente precisa desabafar com alguém que esteja do outro lado da linha.

Então falei:
— Minha filha, meu amor, minha querida, eu já não sei mais a quem recorrer. Eu ligo todos os dias e a única coisa que muda é o horário da promessa.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

Talvez procurando uma resposta.

Talvez procurando água também.

No fundo, continuo esperando.

Esperando o dia glorioso em que abrirei a torneira e ouvirei aquele barulhinho maravilhoso da água chegando.

Nesse momento, não quero festa.

Não quero bolo.

Não quero fogos.

Quero apenas tomar um banho de verdade.

Daqueles em que a gente entra sujo e sai limpo.

Porque, depois de dez dias, aprendi uma grande lição:

Dinheiro é importante.

Saúde é fundamental.

Mas felicidade mesmo é abrir uma torneira e ver a água cair. Em abundância.

E sem precisar informar o CPF antes.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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