O Brasil está ficando velho. E, pelo jeito, ninguém avisou ao Brasil.
Acabei de ver uma estatística que me fez parar: já são cerca de 17,1 milhões de brasileiros com 70 anos ou mais. É gente demais para caber numa estatística e, talvez, gente de menos para caber na atenção do poder público.
Estamos envelhecendo. Nascem menos crianças, vivemos mais e, enquanto isso, continuamos planejando cidades como se todo mundo tivesse joelho novo, visão perfeita e disposição para subir escada.
Experimente andar por algumas calçadas. É quase uma prova olímpica. Para quem tem 70 anos, pode ser um percurso de obstáculos. Para quem tem 80, talvez seja necessário um diploma em equilíbrio. E para quem tem 90, melhor nem arriscar.
Mas o problema não está apenas na calçada.
Está no ônibus que não espera. No posto de saúde lotado. Na fila que parece não envelhecer nunca. Na falta de acessibilidade. Na solidão de quem passou a vida inteira trabalhando e, quando finalmente deveria descansar, descobre que envelhecer também custa caro.
E há uma ironia nisso tudo: o país quer que seus idosos vivam mais, mas ainda precisa aprender a fazê-los viver melhor.
A velhice, por aqui, muitas vezes é tratada como se fosse um favor que a sociedade presta. Como se depois de certa idade a pessoa devesse agradecer por ainda estar ocupando espaço.
Pois deveria ser justamente o contrário.
Quem envelheceu carrega aquilo que nenhum aplicativo consegue baixar: memória, experiência, histórias e uma quantidade considerável de coisas que já deram errado antes — e que poderiam nos poupar alguns erros.
O Brasil está ficando velho. E talvez seja melhor começar a se preparar.
Porque o futuro tem uma mania inconveniente: ele chega para todo mundo.
Inclusive para quem hoje acha que velho é sempre o outro.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

