Há ausências que começam muito antes de irmos embora.
Existe uma tristeza silenciosa em perceber que já não pertencemos a um lugar onde, durante tanto tempo, nos sentimos parte de alguma coisa.
A gente olha para um lado, olha para o outro e percebe que a paisagem mudou. O que antes tinha nossa participação, nossa opinião e até nossas pequenas manias agora parece seguir outro caminho. As coisas acontecem, os espaços são modificados, as decisões são tomadas. E tudo parece absolutamente natural.
Ninguém pergunta. Ninguém consulta. Não há sequer um breve: “Você se importa?”, “O que acha?” ou, quem sabe, um simples “Posso?”.
E é curioso como o tempo muda as posições. Antes, éramos nós que mudávamos de lugar, que nos adaptávamos às circunstâncias, que encontrávamos maneiras de continuar. Agora, parece que o lugar muda ao nosso redor, sem que ninguém considere necessário nos avisar.
Não se trata de querer mandar, de exigir privilégios ou de acreditar que tudo deve permanecer como sempre foi. As mudanças fazem parte da vida. O problema é quando a mudança vem acompanhada da indiferença, como se a nossa história naquele espaço tivesse perdido o valor.
Porque pertencimento não é propriedade. É vínculo. É memória, participação, respeito e reconhecimento.
Talvez a parte mais difícil não seja perceber que as coisas mudaram. É descobrir que, para algumas pessoas, nossa ausência de participação já não faz diferença.
E então a gente começa a se perguntar, em silêncio: será que ainda estou nesse lugar ou apenas continuo ocupando um espaço que já não me reconhece?
Há lugares dos quais saímos com os pés. De outros, a gente vai sendo retirado aos poucos, mesmo permanecendo no mesmo endereço.
E essa talvez seja uma das formas mais tristes de partir.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

