Passei a minha vida inteira escutando essa frase: “filho de peixe, peixinho é.” E, para dizer a verdade, ainda escuto. Até hoje.
Agora que escrevo minhas crônicas, não é raro alguém dizer que isso está no sangue, que talvez seja por causa do meu pai, Bráulio Leite Júnior, que também era jornalista. Como se algumas escolhas viessem escritas no DNA e, em algum momento da vida, simplesmente aparecessem.
Talvez apareçam mesmo.
Meu pai deixou em mim muitas coisas que não consigo medir. Entre elas, certamente, o amor pela palavra, pela cultura, pela história e por essa mania bonita — e às vezes teimosa — de transformar o que a gente sente em palavras.
Por isso, quando recebi o convite para escrever sobre Teca Nelma, a frase voltou imediatamente à minha cabeça: filho de peixe, peixinho é.
Teca é filha de Teresa Nelma. E Teresa é dessas mulheres que já escreveram muitas páginas na história política de Alagoas. Foi deputada federal por vários mandatos e continua na vida pública, agora novamente candidata à Câmara Federal.
Teca cresceu acompanhando de perto essa trajetória. Cresceu vendo a mãe fazer política, defender suas causas, enfrentar desafios e ocupar espaços que nem sempre foram fáceis para uma mulher.
Mas existe uma diferença importante entre carregar um sobrenome e construir uma história.
Teca não ficou apenas como “a filha de Teresa Nelma”. Ela foi buscar o próprio caminho. Foi vereadora de Maceió, levou suas pautas para o Legislativo municipal e se tornou conhecida por sua atuação em defesa das mulheres, das pessoas com deficiência, da juventude, da inclusão e de outras causas sociais.
Agora, coloca seu nome à disposição dos alagoanos como candidata a deputada estadual.
E é justamente nesse momento que a velha frase ganha outro significado.
Porque ser filho de peixe não significa necessariamente repetir o caminho dos pais. Significa, muitas vezes, receber uma espécie de primeira lição de vida dentro de casa. Aprender olhando. Absorver valores. Conhecer de perto aquilo que, mais tarde, pode ou não se transformar em vocação.
No meu caso, aconteceu com o jornalismo.
Passei anos ouvindo que eu escrevia porque era filha de jornalista. Hoje, continuo escrevendo porque gosto. Porque encontrei na palavra uma forma de conversar com as pessoas, de registrar memórias, de falar sobre a minha cidade, sobre as coisas que vejo e sobre aquilo que me toca.
Meu pai foi a raiz. Mas as palavras que escrevo hoje são minhas.
Talvez seja assim também com Teca.
Teresa pode ter sido a referência, a inspiração, a primeira escola política. Mas Teca precisou construir suas próprias convicções, enfrentar seus próprios desafios e encontrar sua própria maneira de estar na vida pública.
E isso é importante.
Porque nenhuma filha precisa ser uma cópia da mãe. Nenhum filho precisa reproduzir exatamente a profissão, os sonhos ou as escolhas dos pais. O que recebemos deles pode ser apenas uma semente.
Depois, cada um cuida do seu jardim.
Teresa e Teca são duas mulheres de gerações diferentes, ligadas pelo sangue e pela política. Uma abriu caminhos e construiu sua história. A outra cresceu conhecendo esses caminhos e, ao seu modo, decidiu seguir por eles, abrindo também os seus.
É bonito quando uma herança se transforma em continuidade, mas é ainda mais bonito quando a continuidade não apaga a individualidade.
Teca é filha de Teresa, sim.
Mas também é Teca.
E talvez seja essa a grande beleza da expressão que ouvi durante toda a minha vida. “Filho de peixe, peixinho é” não precisa ser uma sentença. Pode ser apenas o começo de uma história.
O peixe grande ensina a nadar. O peixinho aprende.
Depois, chega a hora de escolher a própria direção.
E é nesse momento que a gente deixa de ser apenas filho de alguém e passa a ser autor da própria história.
Que Teca siga nadando.
Com suas próprias braçadas, suas próprias escolhas e o seu próprio jeito de fazer política.
Porque, afinal, filho de peixe, peixinho é.
Mas todo peixinho, um dia, encontra o seu próprio rio.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

