A Bola Rola e o Cabelo Aparece


A Copa do Mundo ainda nem começou e eu já estou intrigada. Não com a defesa da Seleção, nem com o meio-campo, muito menos com os atacantes. Minha curiosidade mora alguns centímetros acima da testa dos jogadores.

Outro dia, assistindo a um amistoso do Brasil, percebi que existe uma competição paralela acontecendo em campo. Não aparece na súmula, não vale pontos no ranking da FIFA e não distribui medalhas. É a disputa pelo penteado mais chamativo da partida.

Toda Copa deixa sua contribuição para a história capilar da humanidade.

Teve a época dos cabelos descoloridos, quando jogadores morenos apareciam em campo exibindo um loiro que nem três meses de praia conseguiriam produzir. Teve o inesquecível corte do Ronaldo, aquele que parecia uma obra interrompida no meio da construção: um pedacinho de cabelo na frente e um imenso vazio atrás. Até hoje ninguém sabe se aquilo foi moda, aposta ou distração do barbeiro.

Agora a tendência parece ser outra. Raspa-se aqui, raspa-se ali, faz-se um degradê nas têmporas, desenham-se linhas misteriosas e deixa-se um generoso chumaço de cabelo no alto da cabeça. Alguns ficam elegantes. Outros parecem ter levado um susto tão grande que os cabelos resolveram fugir para o topo da cabeça.

O curioso é que essa moda não fica restrita aos gramados.

Mal um jogador aparece com um corte diferente e, na semana seguinte, metade dos rapazes do bairro já está tentando reproduzir a novidade. Nem sempre com o mesmo sucesso. O resultado varia entre jogador profissional, cantor sertanejo e vítima de uma máquina de cortar cabelo desgovernada.

Mas os cabelos não estão sozinhos nessa revolução estética.

As chuteiras também resolveram chamar atenção.

Antigamente eram pretas. Em ocasiões especiais, brancas. Simples, discretas e perfeitamente identificáveis como chuteiras.

Hoje parecem ter sido escolhidas numa loja de tintas durante uma liquidação. Há chuteiras laranja fluorescente, amarelo-canário, verde-periquito, rosa-choque e algumas cores que provavelmente ainda não receberam nome oficial da ciência.

Às vezes fico pensando que, se um jogador perder uma chuteira durante a partida, não haverá necessidade de procurá-la. Ela poderá ser localizada por satélite.

E como se não bastassem os cabelos e as chuteiras, descobri mais uma atração do espetáculo futebolístico moderno: o técnico mascador de chicletes.

Lá estava ele.

Mão no bolso.

Caixinha para fora.

Chiclete na boca.

Noventa minutos de mastigação ininterrupta.

Enquanto o Brasil atacava, ele mascava.

Enquanto defendia, ele mascava.

Enquanto o juiz apitava, ele mascava.

Enquanto o narrador falava, ele mascava.

Confesso que, em determinado momento, fiquei sem saber se estava assistindo a uma partida de futebol ou a uma propaganda de chicletes com intervalos para alguns lances da Seleção.

Talvez tudo isso faça parte dos novos tempos. Hoje não basta jogar bem. É preciso ter um cabelo memorável, uma chuteira visível do espaço e, pelo visto, uma mandíbula bem treinada.

Eu mesma já nem sei para onde olhar. Às vezes a bola está de um lado, a torcida do outro e o penteado de um atacante parece viver numa dimensão própria.

Fico imaginando como será a próxima Copa.

Talvez apareça alguém com o cabelo em formato de taça.

Outro pinte a cabeça com as cores da bandeira.

Um terceiro entre em campo com um corte tão moderno que nem o barbeiro consiga explicar o que fez.

Quanto ao técnico, espero sinceramente que a FIFA não resolva criar uma estatística para chicletes mascados por partida. Porque, nesse quesito, o Brasil já entra como forte candidato ao título.

Mas confesso que sinto saudade de uma época mais simples. Daquele tempo em que a principal preocupação era saber se o atacante faria o gol e não se o penteado sobreviveria aos noventa minutos.

Por outro lado, se o Brasil trouxer a taça para casa, estou disposta a rever minhas opiniões.

Podem entrar em campo de cabelo azul, verde, lilás ou cor de abóbora.

Podem usar chuteiras que brilhem no escuro.

Podem mascar chiclete do primeiro ao último minuto.

Eu aplaudo tudo.

Agora, se a bola não entrar…

Ah, meu amigo…

No Brasil, penteado bonito dura exatamente até o primeiro gol perdido.

Depois disso, o craque descobre uma verdade que nenhuma barbearia, nenhum patrocinador e nenhum tubo de gel consegue esconder:
quem ganha o jogo é a bola. O cabelo é só o acompanhante. ⚽✂️😄

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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