A Vida Eterna em Doze Parcelas


Hoje é feriado de Corpus Christi. Aproveitei a folga para fazer aquilo que nunca acaba: limpar a casa.

Comecei cheia de disposição. Vassoura para cá, pano para lá, espanador acolá. Mas, em poucos minutos, cheguei a uma conclusão inevitável: minha casa deixou de ser residência. Virou salão de beleza. Ou talvez uma barbearia de bairro em dia de movimento.

Nunca vi tanto cabelo.

Tinha cabelo no banheiro, no quarto, atrás da porta, embaixo da cama e até em lugares onde só Deus sabe como foi parar. Passei a vassoura e fiquei olhando para aquele monte de fios com uma certa preocupação. Se continuasse naquele ritmo, dentro de alguns meses eu estaria concorrendo com um coco seco.

Terminada a limpeza, sentei para descansar e fui navegar pelas redes sociais. Foi quando percebi que eu estava preocupada à toa.

Segundo os anúncios, não existe mais motivo para envelhecer.

Uma médica sorridente garante que descobriu o segredo que ninguém lhe contou sobre a menopausa. Outro especialista afirma que todas as mulheres estão sendo enganadas. Um terceiro promete restaurar hormônios, energia, pele, cabelos, autoestima e, pelo jeito, até os boletos atrasados.

A cada anúncio surge uma novidade.

Se você fizer o tratamento certo, ficará mais jovem.

Se comprar o produto certo, ficará mais bonita.

Se usar o creme certo, ficará radiante.

Se adquirir o kit completo, provavelmente sairá da maternidade na semana seguinte.

O mais curioso é que não são apenas vendedores desconhecidos escondidos em perfis suspeitos. São também grandes empresas, marcas famosas, respeitadas, que há décadas fazem parte da vida dos brasileiros. Todas apresentam fórmulas cada vez mais modernas para combater rugas, flacidez, manchas, cabelos brancos e qualquer outra evidência de que o calendário continua funcionando.

Parece que envelhecer se tornou uma afronta à indústria da beleza.

E eu fico imaginando a cena.

A mulher acorda com sessenta anos.

Passa um sérum.

Fica com cinquenta e cinco.

Aplica um creme noturno.

Desce para quarenta e oito.

Usa uma cápsula importada.

Chega aos trinta e cinco.

Continua o tratamento por mais uma semana e corre o risco de precisar voltar para o jardim de infância.

Enquanto isso, a menopausa virou a estrela principal do mercado. Nunca se falou tanto nela. Tenho a impressão de que nossas avós passaram por essa fase com muito menos alarde. Hoje parece que a menopausa é responsável por tudo: do calor excessivo à crise econômica mundial.

Evidentemente, existem tratamentos sérios, médicos competentes e avanços importantes da ciência. Ninguém está discutindo isso.

O que me espanta é a quantidade de promessas milagrosas vendidas diariamente para mulheres que, muitas vezes, só estão vivendo uma etapa natural da vida.

Porque a verdade é simples: envelhecer não é doença.

Menopausa não é defeito.

Cabelo branco não é falha de caráter.

Ruga não é crime.

São apenas sinais de que tivemos o privilégio de permanecer por aqui.

No final das contas, depois de recolher cabelos pela casa inteira e ouvir mais uma dúzia de promessas de juventude eterna, cheguei a uma conclusão.

O chão da minha casa é mais sincero do que a internet.

Os cabelos que encontrei espalhados pelos cômodos não me prometeram rejuvenescimento, não me venderam fórmula revolucionária e nem ofereceram desconto por tempo limitado.

Limitaram-se a dizer a verdade.

O tempo está passando.

E, convenhamos, ele passa para todos.

Inclusive para quem fabrica os cremes. E para quem aparece nos anúncios jurando que descobriu o segredo da eterna juventude.

Só que essa parte eles esquecem de contar.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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