Onze-horas, Como Eu


Na última sexta-feira, ganhei flores.

Não eram rosas de hastes compridas, dessas que chegam embrulhadas em papel bonito e carregam consigo as declarações de amor que a gente já conhece. Eram pequenas, delicadas, quase tímidas, mas de uma beleza capaz de fazer o coração sorrir. Eram onze-horas.

Havia flores cor-de-rosa, de um rosa tão intenso que parecia guardar um pedaço do entardecer; havia amarelas, acesas como pequenos sóis, e brancas, com aquela simplicidade que só as coisas verdadeiramente bonitas conseguem ter.

Fiquei olhando para elas. E, enquanto as admirava, tive uma dessas descobertas miúdas que a vida nos oferece quando a gente não está procurando nada: aquelas flores se pareciam comigo.

Gostam do dia. Abrem-se quando a luz chega, recebem o sol de peito aberto, exibem suas cores sem pedir licença. Mas, quando a claridade vai embora, recolhem as pétalas. Fecham-se devagar, como quem guarda para si um segredo, como quem precisa do silêncio da noite para descansar do mundo.

Sou um pouco assim.

Gosto dos dias, das conversas, dos encontros, das pequenas alegrias que chegam sem avisar. Gosto de rir, de sentir a vida acontecendo, de me deixar encantar por aquilo que muita gente nem percebe. Mas também tenho minhas horas de recolhimento. Há momentos em que prefiro fechar as pétalas, guardar os sentimentos, silenciar as palavras e ficar comigo mesma.

Não é tristeza, necessariamente. É apenas o meu jeito de existir. Nem toda flor precisa estar aberta o tempo inteiro. Nem todo coração precisa explicar por que, de vez em quando, escolhe o silêncio.

Talvez seja isso que a gente leve tanto tempo para aprender: que também temos o direito de nos recolher, de não responder a todas as perguntas, de descansar da claridade e esperar que o sol volte. Afinal, até as flores sabem que não precisam florescer a cada minuto para serem bonitas.

Desde sexta-feira, olho para minhas onze-horas com um carinho diferente. Elas não são apenas flores que ganhei. São pequenas companheiras que, sem saber, me reconheceram.

E gosto de pensar que, enquanto o mundo exige que estejamos sempre disponíveis, sempre sorrindo, sempre abertas para tudo e para todos, minhas flores me lembram de uma verdade muito simples: há beleza em se abrir, mas também há sabedoria em saber quando se fechar.

Amanhã, quando o sol chegar, elas tornarão a abrir suas cores. O rosa, o amarelo e o branco voltarão a enfeitar o meu pequeno mundo.

E eu, quem sabe, também abrirei as minhas pétalas.

Porque sou feita de dias ensolarados e noites silenciosas, de palavras que transbordam e de sentimentos que prefiro guardar. Sou feita de luz, mas também de sombra. De presença, mas também de ausência.

Sou assim: gosto do dia, mas respeito a noite.

E, se alguém me perguntar o que há de tão especial nessas pequenas flores, talvez eu responda apenas:

Elas são lindas porque sabem a hora de se abrir. E se parecem comigo porque também sabem a hora de se recolher.

Ganhei onze-horas na última sexta-feira.

Mas desconfio de que, junto com elas, ganhei um espelho de pétalas.

E, pela primeira vez, achei bonito me reconhecer numa flor.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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