CARTA ABERTA AO GOVERNADOR DE ALAGOAS

Governador, não deixem o CENARTE morrer!

Governador,

Eu poderia ficar em silêncio, mas, diante do que está acontecendo com o Centro de Belas Artes de Alagoas (CENARTE), calar seria virar as costas para uma história da qual também faço parte. E isso eu não posso fazer.

Meu nome é Eleonora Duse de Pontes Leite. Sou funcionária pública há mais de 30 anos, jornalista e a primeira funcionária do CENARTE. Comecei minha trajetória na instituição desde sua criação e, hoje, sou a servidora com mais tempo de serviço naquele espaço.

Também sou filha de Bráulio Leite Júnior, jornalista, advogado, teatrólogo, ator, escritor e gestor cultural, que dedicou décadas de sua vida à cultura alagoana, à frente do Teatro Deodoro e da Fundação Teatro Deodoro. Meu pai idealizou e ajudou a criar o CENARTE, além de estar ligado à criação de importantes equipamentos culturais do nosso estado.

Bráulio Leite Júnior

Por isso, não falo de uma história que conheço apenas pelos registros. Eu a vivi. Acompanhei sua construção, suas conquistas e suas dificuldades. É justamente por conhecer tão de perto essa trajetória que me sinto no dever de manifestar minha indignação e minha preocupação com o futuro dessa instituição.

O CENARTE tem 44 anos de história e de serviços prestados à população alagoana. Durante mais de quatro décadas, ofereceu gratuitamente cursos de música, dança, teatro e artes plásticas, abrindo portas para crianças, jovens, adultos e idosos que encontraram na arte oportunidades de aprendizado, desenvolvimento e transformação.

O CENARTE não é apenas um prédio. É um espaço de formação, inclusão, convivência e cidadania. É parte da memória cultural de Alagoas.

E é essa história que precisa ser protegida.

O prédio está passando por uma reforma que se encontra em estágio avançado, com previsão de entrega em dezembro, conforme anunciado na placa instalada no local. Há espetáculos de dança sendo preparados, apresentações musicais, exposições e esquetes teatrais. Professores e equipes trabalham na organização de atividades para marcar a retomada do funcionamento da instituição.

Entretanto, justamente nesse momento, os oito professores contratados foram informados de que seus contratos seriam encerrados e de que não precisariam mais retornar para dar aulas.

Como compreender uma decisão dessas?

Que sentido tem entregar à população um prédio reformado sem garantir os profissionais necessários para que ele cumpra sua finalidade?

Atualmente, o CENARTE conta com apenas três professores efetivos e três servidores administrativos. Com o encerramento dos contratos dos oito professores, a continuidade das atividades e dos cursos oferecidos à população fica ameaçada.

Não estamos falando apenas de contratos de trabalho. Estamos falando de educação artística, de formação cultural, de projetos em andamento e de oportunidades que podem deixar de existir para centenas de pessoas.

E há um precedente que torna tudo isso ainda mais doloroso.

Durante a pandemia, o CENARTE foi fechado para reforma. Naquele processo, perdemos instrumentos, livros, materiais didáticos e outros elementos que integravam o patrimônio e a memória da instituição. Foram perdas materiais, mas também simbólicas, que deixaram marcas em quem conhece e respeita sua trajetória.

Agora, quando a reforma se aproxima do fim e a reabertura começa a ser planejada, é preocupante imaginar que o espaço possa voltar a funcionar sem professores em número suficiente para atender à comunidade.

Reformar a estrutura física é necessário, mas não suficiente. Uma instituição cultural não se sustenta apenas com paredes renovadas. Precisa de profissionais, projetos, alunos e condições para cumprir sua missão.

Governador, faço este apelo também como filha.

Não posso assistir passivamente à possibilidade de uma instituição idealizada e construída com tanto empenho por meu pai perder sua força e sua finalidade. Bráulio Leite Júnior acreditava que a cultura precisava chegar às pessoas, e não ficar restrita a poucos. O CENARTE nasceu dessa convicção e, durante 44 anos, tornou esse ideal realidade na vida de muitos alagoanos.

Preservar esse legado não significa apenas honrar a memória de quem ajudou a idealizá-lo. Significa assegurar que as próximas gerações também tenham acesso às oportunidades que a arte oferece.

Sei que o senhor tem realizado ações nas áreas da educação e da cultura em Alagoas. É justamente por reconhecer a importância dessas políticas que apresento uma questão que precisa ser enfrentada: por que a Cultura ficou de fora da abertura de concursos públicos destinados a outras áreas e secretarias?

O CENARTE está vinculado à Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa. Como garantir a continuidade de seus serviços sem profissionais suficientes para mantê-los?

É necessário discutir a realização de concurso público para a área cultural e buscar soluções que assegurem ao CENARTE um quadro de professores compatível com suas necessidades. A continuidade de uma política pública não pode ficar vulnerável a interrupções que comprometem o planejamento e o atendimento à população.

Meu pedido, portanto, não se limita à revisão do encerramento dos contratos. É um apelo para que o Governo do Estado reavalie essa decisão, ouça os profissionais envolvidos e encontre alternativas que garantam a continuidade das atividades da instituição.

Governador, dezembro está chegando. O que encontraremos quando as portas do CENARTE forem reabertas?

Queremos música, dança, teatro, exposições, professores, alunos e uma comunidade ocupando novamente seus espaços. Queremos um centro de artes funcionando plenamente, honrando sua história e preparando o futuro.

Não queremos apenas um prédio reformado. Queremos uma instituição viva.

Ainda há tempo para rever decisões e impedir que a falta de profissionais comprometa um trabalho construído ao longo de mais de quatro décadas. O que está em jogo não é somente o funcionamento de uma unidade administrativa, mas a continuidade de um serviço público de formação artística e de acesso à cultura.

Por isso, faço este apelo como filha de Bráulio Leite Júnior, como primeira funcionária do CENARTE, como servidora pública há mais de 30 anos, como jornalista e como alguém que dedicou parte de sua vida àquela instituição:

Governador, não deixem o CENARTE morrer!

Alagoas não pode perder mais um pedaço de sua memória cultural. Quarenta e quatro anos de história não podem ser reduzidos a um prédio reformado, mas sem as condições necessárias para cumprir sua missão.

O CENARTE é patrimônio vivo. E patrimônio vivo precisa de cuidado, investimento, profissionais e compromisso público.
Ainda dá tempo, governador. Que a entrega de dezembro represente o início de um novo capítulo na história do CENARTE, e não a inauguração de uma casa bonita, mas sem vida.

Salve o CENARTE!

Eleonora Duse de Pontes Leite
Funcionária pública e jornalista

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