Hoje escrevo com tristeza, perplexidade e, confesso, com o coração apertado diante de uma notícia que parece pequena para quem olha de fora, mas que representa uma perda enorme para a cultura de Alagoas.
Oito professores contratados do Cenarte serão desligados. E, com isso, as aulas estão sendo canceladas.
Pode parecer apenas uma decisão administrativa. Mas não é.
Para quem conhece o Cenarte, sabe que estamos falando de uma instituição que há 44 anos forma pessoas, desperta talentos, oferece conhecimento e mantém viva a chama da arte em Alagoas.
Eu conheço essa história por dentro. Em 16 de agosto de 1982, quando o Cenarte foi criado, eu estava lá. Vivi seus primeiros passos, acompanhei sua caminhada e vi gerações passarem por seus cursos, suas salas, seus projetos e seus sonhos.
Por isso, não consigo olhar para o que está acontecendo agora e enxergar apenas oito contratos encerrados.
Vejo salas que poderão ficar vazias.
Vejo alunos que terão suas aulas interrompidas.
Vejo professores que dedicaram seu conhecimento e seu trabalho à formação de outras pessoas sendo afastados.
E vejo, sobretudo, uma instituição histórica sendo enfraquecida pouco a pouco.
O Cenarte não é despesa. O Cenarte é investimento em gente.
A arte também educa. A música educa. O teatro educa. A dança educa. As artes visuais educam. E, muitas vezes, é justamente dentro de uma sala de aula de arte que uma criança, um jovem ou um adulto descobre uma possibilidade que jamais havia imaginado para a própria vida.
É preciso que a sociedade alagoana saiba o que está acontecendo.
Não podemos permitir que 44 anos de história sejam reduzidos a números em uma planilha.
Não podemos aceitar que o silêncio seja a resposta quando uma instituição que tanto fez pela cultura e pela formação artística do nosso Estado começa a perder justamente aqueles que estão ali para ensinar.
Hoje são oito professores.
Amanhã, o que será?
E depois?
Esta não é uma carta contra pessoas. É uma carta a favor do Cenarte.
É um pedido para que a sociedade olhe, acompanhe, questione e compreenda o que está sendo feito com um patrimônio que pertence, antes de tudo, à comunidade alagoana.
O Cenarte precisa continuar funcionando. Precisa de professores. Precisa de alunos. Precisa de investimento. Precisa ser respeitado em sua história e valorizado pelo que ainda pode construir.
Depois de 44 anos fazendo a arte permanecer, o Cenarte não pode ser condenado ao silêncio.
Alagoas precisa saber.
A comunidade precisa saber.
E o Cenarte precisa ser ouvido.
Porque quando uma sala de aula de arte fecha suas portas, não é apenas uma aula que deixa de acontecer.
É uma possibilidade que deixa de nascer.
Duse Leite
Funcionária pública e jornalista

