A arte de ter opinião sobre tudo


Há pessoas que não precisam estudar, pesquisar, ouvir os dois lados ou sequer conhecer o assunto. Basta que alguém comece a falar para elas já terem uma opinião formada. E ai de quem ousar discordar!

Vivemos tempos curiosos. Todo mundo entende de política, medicina, educação, economia, comportamento humano e, se bobear, até de engenharia espacial. O diploma pode até faltar, mas a certeza é doutorada.

Nas redes sociais, então, a coisa fica ainda mais interessante. Uma notícia mal foi publicada e já aparecem especialistas de plantão, distribuindo sentenças como quem distribui panfletos na esquina. Pouco importa se a informação é verdadeira, se está incompleta ou se foi tirada de contexto. O importante é comentar primeiro. Pensar depois, se houver tempo.

E existe uma espécie ainda mais interessante: aquela que não aceita opiniões diferentes. Para essas pessoas, discordar não é parte da convivência democrática; é quase uma ofensa pessoal.

A conversa deixa de ser troca de ideias e vira campeonato. Ninguém quer compreender. Todo mundo quer vencer.

O curioso é que saber muito não significa, necessariamente, ter razão. E reconhecer que não sabemos tudo talvez seja uma das formas mais bonitas de inteligência. Afinal, a dúvida também ensina, o silêncio também comunica e ouvir o outro não diminui ninguém.

Mas parece que perdemos o gosto pela pergunta e desenvolvemos uma paixão inexplicável pela sentença. Julgamos antes de conhecer, condenamos antes de compreender e, muitas vezes, falamos sobre a vida alheia com uma segurança que não temos nem para resolver a nossa.

Opinar é um direito. Escutar também deveria ser um hábito. E mudar de ideia, quando os fatos mostram que estamos errados, não é sinal de fraqueza. É sinal de maturidade.

No fim das contas, talvez o mundo não precise de mais gente com respostas prontas. Precise de gente disposta a pensar, perguntar e, de vez em quando, admitir: “Sobre isso, eu não sei o suficiente para opinar”.

Pode parecer pouco. Mas, nos dias de hoje, essa frase já seria uma verdadeira revolução.

 

Duse Leite
Funcionária pública e jornalista

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