O voto termina na urna. A responsabilidade, não.


Entre a escolha que fizemos e o país que queremos, existe uma responsabilidade que não pode ser terceirizada.

Passada a eleição, baixam as bandeiras, guardam-se os discursos e, aos poucos, as discussões políticas vão perdendo o calor. Pelo menos até aparecer uma nova polêmica nas redes sociais, porque brasileiro pode até esquecer onde deixou os óculos, mas dificilmente esquece uma discussão política da qual participou.

Agora, com o presidente escolhido, é hora de pensar no que vem pela frente. Afinal, eleger alguém não significa apenas depositar esperança numa urna. Significa também assumir o compromisso de acompanhar o que será feito com o nosso voto.

E aqui começa a parte mais interessante — e, para alguns, mais incômoda.

Somos rápidos para cobrar quando o governo é do outro. Apontamos falhas, denunciamos injustiças e exigimos providências. Mas será que mantemos a mesma disposição quando os erros vêm de quem escolhemos? Ou será que, dependendo do lado, até o absurdo ganha uma explicação convincente?

A política tem dessas coisas. Para alguns, o político adversário nunca acerta; para outros, o escolhido nunca erra. E, no meio dessa disputa de certezas, o país continua esperando que alguém resolva os problemas que afetam a vida real.

Porque o preço dos alimentos não pergunta em quem votamos. A fila do hospital não quer saber qual bandeira levantamos. A falta de emprego não distingue eleitores por preferência partidária. Os problemas chegam para todos, enquanto as soluções continuam sendo cobradas de quem governa.

É por isso que a democracia precisa de mais do que eleitores apaixonados. Precisa de cidadãos atentos. Gente capaz de reconhecer um acerto sem transformar governante em herói e de apontar um erro sem achar que está traindo a própria escolha.

Votar não é casar com político, muito menos aceitar uma relação em que só um lado tem direito de falar. O voto não nos obriga a concordar com tudo, a defender o indefensável ou a fechar os olhos para aquilo que precisa mudar.

Em 2027, teremos um novo capítulo da nossa história política. O presidente terá suas responsabilidades, assim como o Congresso, os demais representantes eleitos e as instituições públicas. Mas nós também teremos a nossa: acompanhar, questionar, participar e não permitir que a cidadania se resuma a escolher um nome a cada quatro anos.

E há outra responsabilidade que merece atenção: aprender a conviver com quem votou diferente. Não precisamos pensar igual para respeitar uns aos outros. A divergência faz parte da democracia; transformar o vizinho em inimigo por causa de um voto é que deveria nos preocupar.

No fim das contas, escolher um presidente é uma decisão importante. Mas o futuro de um país não se constrói apenas com a vitória de um candidato. Constrói-se com trabalho, participação, fiscalização e compromisso com aquilo que é coletivo.

Portanto, que ninguém confunda esperança com autorização para se omitir. Que ninguém transforme preferência política em cegueira. E que a cobrança não tenha lado preferido.

O voto termina na urna. A responsabilidade, não. Porque o Brasil que esperamos não depende apenas de quem elegemos, mas também do que estamos dispostos a fazer depois que a eleição acaba.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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