Há teias que a gente vê. E há aquelas que só descobrimos quando já estamos presos.
A aranha não precisa de força para dominar ninguém. Ela constrói. Fio por fio. Quase em silêncio. Quando percebemos, estamos no centro de uma estrutura que não sabemos exatamente quando começou — e muito menos como sair.
A vida também constrói teias.
Uma palavra mal colocada. Uma relação que já não faz sentido, mas que continuamos sustentando. Um trabalho que nos consome. Uma obrigação que aceitamos por medo de dizer não. A necessidade de agradar. O medo de decepcionar. A mania de carregar problemas que nem são nossos.
E vamos acrescentando fios.
O curioso é que, muitas vezes, ninguém nos prende.
Somos nós que permanecemos.
Talvez porque algumas teias sejam confortáveis. Elas nos dão a sensação de pertencimento, de segurança, de que existe um lugar reservado para nós. Mesmo quando esse lugar já ficou pequeno demais.
Há também as teias invisíveis: aquilo que esperam de nós, aquilo que disseram que deveríamos ser, aquilo que aprendemos a suportar porque alguém um dia nos convenceu de que era assim mesmo.
E seguimos.
Até que um dia percebemos que estamos cansados de ser quem os outros precisam que sejamos.
É nesse momento que começa a parte mais difícil: romper o primeiro fio.
Porque romper uma teia não é simplesmente ir embora. Às vezes é dizer não. Às vezes é parar de explicar. Às vezes é deixar de tentar convencer quem já decidiu não nos compreender.
E, às vezes, é olhar para dentro e admitir uma coisa que dói:
eu também ajudei a construir essa prisão.
Talvez seja por isso que algumas pessoas passam tanto tempo procurando a porta.
Não existe porta.
Existe coragem.
E coragem, quase sempre, começa com um gesto pequeno: puxar um fio.
Depois outro.
Até descobrir que aquilo que parecia uma prisão era apenas uma teia.
E que a gente nunca esteve tão preso quanto imaginava.
Só estava com medo de se soltar.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

