O Catolé


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Há lugares que desaparecem do mapa da nossa vida, mas nunca saem da memória.
O Catolé é um deles.
Ficava em Satuba, e durante muitos anos foi o cenário dos dias mais felizes das nossas férias. Meu pai tinha um costume que hoje me parece um gesto de pura sabedoria: em vez de alugar o local nos finais de semana, quando tudo ficava cheio e barulhento, ele alugava durante a semana. Assim, o Catolé era praticamente nosso.
E quando digo nosso, não falo apenas de pai, mãe e filhos.
Falo dos primos.
Todos os primos.
Naquela época, nossa família ocupava um quarteirão inteiro no Farol. Os quintais quase se encontravam, as casas viviam de portas abertas e a infância corria livre de uma para outra. Bastava meu pai anunciar que havia alugado o Catolé para a notícia atravessar os quintais numa velocidade maior que qualquer telefone.
No dia marcado, lá íamos nós.
A alegria começava antes mesmo de chegar.
Levávamos boias de todo tipo. Algumas eram compradas em lojas. Outras eram velhos pneus de carro reaproveitados com toda a dignidade do mundo. Para nós, não havia diferença. O importante era entrar na água.
E que água.
A piscina era abastecida por uma nascente que vinha da mata. Eu nunca soube exatamente de onde aquela água surgia. Sabia apenas que ela chegava fria, cristalina e abundante, escorrendo entre as árvores até encher a piscina que nos esperava como um convite irrecusável.
Ao redor, os eucaliptos dominavam a paisagem.
Ainda hoje, quando sinto aquele cheiro característico, sou transportada para lá. Vejo novamente os troncos altos, a sombra espalhada pelo chão e o sol filtrado entre os galhos.
O lugar tinha uma grande mesa de cimento armado, daquelas feitas para durar uma vida inteira. Havia também dois espaços para troca de roupa, um feminino e outro masculino, além do banheiro propriamente dito. As portas eram verdes. Curioso como a memória guarda certas coisas. De tudo o que poderia ter esquecido, lembro perfeitamente das portas verdes.
Enquanto nós mergulhávamos sem descanso, minha mãe assumia seu posto.
Levava uma panela de barro e preparava uma feijoada cujo aroma parecia se espalhar por todo o sítio. Era impossível resistir.
Mas nós tentávamos.
Porque a piscina sempre vencia.
Saíamos da água para comer.
Voltávamos correndo.
Comíamos uma manga.
Voltávamos para a água.
Beliscávamos uma banana.
Voltávamos para a água.
Tomávamos um pedaço de laranja-cravo.
E voltávamos mais uma vez.
Passávamos o dia inteiro assim.
Os dedos ficavam franzidos.
Os lábios arroxeados pelo frio.
E ninguém queria saber de sair.
De vez em quando apareciam os meninos das redondezas carregando bacias e cestos cheios de mangas, cajus e coquinhos. Meu pai tinha o hábito de comprar tudo. Absolutamente tudo.
Talvez para ajudar aqueles meninos.
Talvez porque soubesse que fruta fresca nunca era demais diante de uma tropa de crianças famintas.
Talvez pelas duas razões.
O fato é que as frutas logo desapareciam entre risos, mergulhos e brincadeiras.
E o dia seguia seu curso sem que ninguém percebesse.
Naquele tempo, as horas não tinham pressa.
Não existia celular tocando.
Não existia mensagem chegando.
Não existia urgência.
Existia apenas o dia.
Um dia inteiro.
Quando a tarde começava a cair, minha mãe e meu pai iniciavam a mesma batalha de sempre:
— Menino, saia um pouco dessa água!
Nós saíamos.
Cinco minutos depois, estávamos de volta.
Mas havia um sinal que não admitia discussão.
Por volta das cinco horas, começavam a aparecer os maruís, aqueles mosquitinhos insistentes que anunciavam o fim da festa. Era a hora de recolher as coisas.
A contragosto, trocávamos de roupa.
E então vinha o momento mais bonito.
O sol já estava baixo.
A luz atravessava os galhos dos eucaliptos e desenhava faixas douradas pelo caminho. O dia escurecia devagar, como se também não quisesse ir embora.
Nós entrávamos no carro cansados, com cheiro de piscina, de mato, de fruta e de feijoada.
E voltávamos para casa felizes.
Hoje, não sei se aquela mesa de cimento ainda existe. Não sei se as portas continuam verdes. Não sei sequer se os eucaliptos permanecem de pé.
Mas, quando fecho os olhos, tudo continua lá.
Vejo meus primos correndo.
Vejo meu pai comprando frutas dos meninos da região.
Vejo minha mãe mexendo a feijoada na panela de barro.
E vejo aquele pedaço de mundo que, durante alguns dias das férias, parecia pertencer apenas à nossa família.
Talvez seja isso a infância.
Um lugar para o qual nunca voltamos de verdade.
Mas que nunca nos deixa partir.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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