Quando o talento não basta


Foto: Estadão

A segunda-feira amanheceu mais triste para quem acreditava que o Brasil seguiria em frente na competição. Eu, particularmente, não estava tão confiante, mas torci como todo brasileiro.

Afinal, quando a Seleção entra em campo, a esperança sempre encontra um lugar no coração da gente.

Depois da eliminação, como sempre acontece, começaram as críticas. Muitos apontam o técnico Carlo Ancelotti como o principal responsável pelo resultado. Respeito todas as opiniões, mas penso diferente. Não acredito que o problema esteja apenas no treinador.

Na minha opinião, o futebol brasileiro precisa rever a forma como monta a Seleção. Não adianta reunir grandes estrelas se elas quase não convivem, quase não treinam juntas e não criam o entrosamento que um time precisa ter. Futebol é um esporte coletivo. O talento individual faz diferença, mas sozinho não ganha campeonato.

A maioria dos nossos convocados atua no exterior. São excelentes jogadores, e isso ninguém discute. Mas cada um joga em um clube diferente, sob o comando de treinadores diferentes e com estilos de jogo diferentes. Quando chegam à Seleção, têm pouco tempo para treinar e criar uma identidade dentro de campo.

Enquanto isso, o Campeonato Brasileiro continua revelando atletas de qualidade que poderiam receber mais oportunidades. Não defendo que os jogadores que atuam fora deixem de ser convocados. Defendo apenas que se valorize também quem joga aqui e que haja uma base com continuidade, capaz de criar confiança, entendimento e espírito de equipe.

Não existe time vencedor sem convivência. Não basta um jogador querer resolver tudo sozinho. É preciso confiar no companheiro, trocar passes, ocupar espaços e entender os movimentos uns dos outros. Esse entrosamento não nasce de um dia para o outro; é fruto de trabalho, tempo e repetição.

O Brasil continua revelando grandes talentos. Isso nunca deixou de acontecer. O que está faltando é transformar esses talentos em uma equipe de verdade, onde o coletivo fale mais alto do que o brilho individual.

Basta lembrar das grandes seleções brasileiras que encantaram o mundo. Elas tinham craques, é verdade, mas, acima de tudo, tinham um futebol coletivo. Os jogadores pareciam se conhecer de olhos fechados. Os passes saíam naturalmente, as jogadas fluíam com harmonia e cada atleta sabia exatamente o seu papel dentro de campo. Foi esse entrosamento que transformou grandes talentos em equipes inesquecíveis. Talvez seja justamente essa lição que o futebol brasileiro precise reaprender: uma seleção não se faz apenas com nomes consagrados, mas com tempo, convivência, confiança e espírito de equipe.

Quando entendermos que uma Seleção se constrói muito antes do apito inicial, talvez deixemos de lamentar eliminações e voltemos a comemorar conquistas. Porque, no futebol, assim como na vida, há momentos em que o talento, por si só, não basta.

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista

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