Todo mundo sonha com alguns dias em casa. Eu também sonhava.
Quando o recesso chegou, imaginei manhãs tranquilas, café sem pressa, um livro ao lado da poltrona, talvez uma soneca depois do almoço e a agradável sensação de finalmente descansar.
Foi então que a casa resolveu se apresentar.
Descobri que a vida doméstica é uma espécie de empresa que funciona vinte e quatro horas por dia, sem feriado, sem décimo terceiro e sem aposentadoria. Quem diz que dona de casa não trabalha certamente nunca passou quinze dias inteiros dentro de uma.
A cozinha, por exemplo, é uma entidade sobrenatural. Você lava um prato e surgem três. Enxuga uma panela e aparece uma colher misteriosa dentro da pia. Não importa quantas vezes se limpe a bancada: sempre existe uma migalha, uma gota de café ou uma tampa perdida.
E a bucha de lavar pratos? Antigamente uma bucha parecia ter curso superior e estabilidade no emprego. Hoje ela trabalha dez dias e pede aposentadoria. Não importa a marca. Todas parecem feitas com prazo de validade semelhante ao do iogurte.
O detergente também mudou de personalidade. Antigamente um pouco de sabão em barra resolvia a situação. Hoje o detergente faz espuma, propaganda, promessas e perfume, mas a gordura continua ali, olhando para nós com certa ironia.
As roupas desenvolveram vida própria. Antigamente uma roupa podia ser usada mais de uma vez sem grandes conflitos. Hoje uma blusa participa de um almoço e já se atira dentro do cesto. O cesto, por sua vez, possui o dom da multiplicação. Você coloca três peças e, no dia seguinte, encontra quinze.
Lembro das lavadeiras de antigamente. Havia tábua, sabão em barra, anil, roupa no varal e muita força de braço. As roupas saíam limpas, cheirosas e engomadas. Hoje temos máquinas sofisticadas, ciclos delicados, amaciantes, cápsulas, fragrâncias de lavanda e programas inteligentes. A roupa sai perfumada, mas algumas manchas continuam ali, resistentes e modernas.
O pão também aderiu à pressa dos tempos atuais. Compra-se hoje e amanhã ele já decidiu mudar de textura. Ou endurece ou mofa. Às vezes consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
A geladeira merece um capítulo especial. Compramos a melhor marca, organizamos os alimentos, fechamos a porta com todo cuidado e, dois dias depois, a comida olha para nós como se tivesse atravessado uma longa viagem no tempo.
E as criaturas domésticas? Traças, teias de aranha, pequenas manchas na parede, poeira que surge do nada. A impressão é de que a casa possui vida própria e trabalha em regime de plantão para desorganizar tudo o que organizamos.
Antigamente havia as lavadeiras, as passadeiras, as empregadas que acompanhavam as famílias por muitos anos. Hoje temos a faxineira eventual, quando temos. Algumas são excelentes e fazem milagres. Outras varrem cuidadosamente ao redor dos móveis, como se as cadeiras fossem monumentos históricos que não podem ser removidos.
Depois de quinze dias em casa, cheguei a uma conclusão profundamente científica: trabalhar fora dá menos trabalho.
No trabalho existe horário para entrar e sair. Em casa não. O expediente doméstico começa antes do café e termina quando a última xícara resolve aparecer na pia.
Quem inventou a expressão “ficar em casa descansando” certamente morava sozinho ou tinha uma cozinheira, uma lavadeira e uma fada madrinha.
O recesso terminou e eu descobri algo importante: a casa é um organismo vivo, extremamente ativo e permanentemente insatisfeito.
E, se alguém me perguntar o que fiz nas férias, responderei com sinceridade:
Sobrevivi à cozinha, ao cesto de roupas, à bucha de dez dias e à eterna conspiração dos pratos na pia.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

