A Guerra dos Palitos


Foto: Ecycle

Tenho a impressão de que os objetos resolveram se revoltar contra mim. Primeiro foi a água. Passei dias esperando a torneira cumprir sua obrigação, olhando para ela com a insistência de quem aguarda uma visita importante. Houve momentos em que deixei a irritação de lado e resolvi até namorá-la, na esperança de que a delicadeza produzisse mais efeito do que a raiva.

Não produziu.

Quando finalmente a paz parecia voltar ao lar, surgiu um novo inimigo: a caixa de fósforos.

Quem diria que um objeto tão pequeno pudesse causar tamanha indignação? Antigamente, bastava riscar um palito e pronto: o fogo aparecia obediente, quase elegante. Hoje, o palito quebra, a cabeça se desprende, a chama não surge ou desaparece antes mesmo de nascer.

Ontem, para acender uma única boca do fogão, gastei oito palitos. Oito! Não se trata de inabilidade da dona de casa, nem de falta de prática. É simplesmente a derrota da qualidade.

Conheço as marcas. Há a cabeça rosa, a preta e tantas outras que passam pelas prateleiras dos supermercados prometendo fogo e entregando frustração. Cada uma parece disputar o campeonato do “não acende”.

Enquanto isso, os fogões modernos, com seus acendedores elétricos, observam a cena com certa superioridade tecnológica. O meu até possui esse recurso, mas confesso que continuo fiel ao velho ritual do fósforo. Há algo de humano em riscar o palito e ver a pequena chama nascer. É quase uma cerimônia doméstica.

Talvez seja por isso que a decepção seja maior. O fósforo deixou de cumprir a missão para a qual foi criado. Tornou-se um objeto que promete fogo e entrega apenas estalos, madeira quebrada e pequenas explosões de paciência.

Às vezes penso que estou me tornando uma pessoa arengueira. Primeiro a briga com a água. Depois o namoro com a torneira. Agora a discussão com os fósforos. Mas talvez não seja isso.

Talvez sejam as pequenas coisas do cotidiano perdendo a qualidade, a simplicidade e a eficiência que tinham antigamente.

No fim das contas, acendi o fogão. Mas a vitória não foi minha nem do fósforo. Foi apenas da insistência. E, convenhamos, gastar oito palitos para fazer nascer uma única chama é um desperdício de madeira, de dinheiro e, principalmente, de paciência.

 

 

Duse Leite é funcionária pública e jornalista.

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