Existe uma frase que o cidadão sem água aprende rapidamente a respeitar: “segunda-feira é o dia.”
Não importa se a segunda já passou, se a terça já se aposentou ou se a quarta está entregando o cargo. Sempre existe uma nova segunda-feira no horizonte. A água virá na próxima. Sempre na próxima.
Já começo a desconfiar que essa segunda-feira mora numa dimensão paralela, junto com as meias que desaparecem na máquina de lavar e as tampas de pote que nunca encontram seus respectivos recipientes.
Enquanto a bendita segunda não chega, sigo numa rigorosa política de economia doméstica. O sabonete, por exemplo, está praticamente intacto. Daqui a pouco ele vai pedir aposentadoria por falta de uso. Tenho tanto cuidado com ele que já o enxugo depois do banho de cuia e o guardo como quem protege uma joia da família.
O desodorante, por outro lado, está trabalhando em jornada dupla. A lavanda já entrou em regime de horas extras. Os perfumes da casa vivem em estado de alerta. Se continuarmos assim, o próximo salário terá destino certo: a sessão de cosméticos do supermercado.
Aliás, estou tomando banho de cuia. E quero deixar claro que não é qualquer cuia. Comprei uma nova, decorada com florzinhas. Se a vida resolveu me transformar numa personagem do século XIX, ao menos terei uma certa elegância. Já penso até em batizá-la. Quem sabe Dona Margarida? Afinal, ela participa mais da minha rotina do que muita gente da família.
O chuveiro, esse traidor, continua ali no alto, olhando para mim com ar de superioridade. Toda vez que entro no banheiro ele parece dizer:
— Hoje também não.
A torneira da cozinha está tão silenciosa que já pode entrar para um convento.
Enquanto isso, a cidade segue seu curso normal. Moro no Farol e o espetáculo está acontecendo em Jaraguá. Nem precisei comprar ingresso. Desde as três e meia da tarde estou acompanhando, gratuitamente, a fase de afinação dos instrumentos.
Nunca vi tanto “pié”, “pom”, “ponhompom”, “tan-tan-tan” e “testando, um, dois, três”. Tenho a impressão de que a orquestra inteira resolveu aprender música naquele exato momento.
Às vezes penso que algum trompetista deve ter chegado atrasado e os outros resolveram esperá-lo por quatro horas.
Quando finalmente a noite chegou, começou o verdadeiro show. E que potência! Os alto-falantes parecem ter sido instalados na minha sala. Os holofotes, por sua vez, atravessam a cidade com tanta força que desconfio estarem me procurando.
A qualquer instante alguém vai bater à porta:
— A senhora é a moça da cuia florida?
— Sou.
— A produção do evento gostaria de convidá-la para subir ao palco.
Eu subiria. Mas faria uma única exigência:
— Quero um caminhão-pipa no camarim.
O curioso é que existe luz para iluminar o céu, potência para espalhar música por quilômetros e energia suficiente para transformar a noite em espetáculo. O que não existe é água na torneira.
Já desenvolvi músculos nos braços de tanto carregar baldes. Se continuar assim, vou cancelar a academia antes mesmo de me matricular. Meus bíceps estão sendo construídos à base de balde e esperança.
Os vizinhos se encontram e já não perguntam:
— Tudo bem?
Perguntam:
— Chegou água?
A resposta virou cumprimento, despedida e assunto principal.
Tenho a impressão de que, quando a água finalmente voltar, ninguém vai acreditar. Alguém vai abrir a torneira e gritar:
— Corre! Corre! Está acontecendo!
As pessoas sairão às janelas. Haverá lágrimas. Alguém tocará o Hino Nacional. Outro fará promessa. Talvez a banda de Jaraguá toque em homenagem ao grande acontecimento.
Até lá, sigo aqui.
Com minha cuia florida.
Meu sabonete em estado de conservação.
Meu estoque de desodorante diminuindo.
Os holofotes me procurando do outro lado da cidade.
E a eterna promessa:
— Segunda-feira é o dia.
Só resta saber de qual ano.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

