A política não começa em Brasília.
Ela começa antes — e mais perto do que se imagina. Está nas decisões pequenas, nos incômodos diários, nas escolhas que parecem individuais, mas nunca são totalmente isoladas. Política é, antes de tudo, convivência.
É o modo como uma sociedade organiza seus conflitos, define prioridades e decide quem será ouvido. Está no transporte que funciona — ou não. Na escola que recebe investimento — ou não. Na cultura que é valorizada — ou esquecida.
Mesmo quando não parece, a política atravessa o cotidiano.
O problema é que, com o tempo, ela foi sendo reduzida a um significado estreito. Para muitos, política virou sinônimo de escândalo, disputa vazia ou promessa não cumprida. E, diante disso, surge o afastamento — como se fosse possível não fazer parte dela.
Mas é.
Quando alguém reclama da cidade, cobra melhorias, participa de decisões coletivas ou até escolhe não se envolver, está exercendo política. A omissão, inclusive, também é uma forma de posicionamento.
Ao mesmo tempo, existe a política institucional — aquela que ocupa cargos, partidos e espaços de poder. E é nesse ponto que surgem as maiores tensões. Porque o ideal de organização coletiva nem sempre se encontra com a prática, marcada por interesses e disputas.
Ainda assim, ignorar a política não elimina seus efeitos. Apenas reduz a capacidade de interferir neles.
No fim, a questão não é se a política faz parte da vida.
É quando cada um percebe que já está dentro dela.
E, a partir disso, decide o que fazer.
Duse Leite
Funcionária Pública e Jornalista

