Li uma publicação do perfil @sobrepessoasintensas, chamada “A morte lenta das cores”, e fiquei olhando para aquela fotografia como quem olha para uma lembrança que não sabe exatamente de onde veio.
A imagem mostra um estacionamento cheio de carros antigos, cada um de uma cor. Vermelho, amarelo, azul, verde, laranja. Ao lado, os carros de hoje, quase todos vestidos de branco, preto, prata ou cinza. A legenda dizia que o mundo perdeu suas cores lentamente. Não houve um dia em que alguém decretou: “A partir de agora, tudo será neutro”. As cores simplesmente foram desaparecendo.
E nós fomos chamando isso de bom gosto.
Talvez seja essa a parte mais curiosa.
O vermelho ficou exagerado. O amarelo, chamativo. O azul, ousado demais. O verde, dependendo do tom, quase uma provocação. E o laranja, coitado, parece precisar de autorização judicial para circular.
Enquanto isso, o cinza foi ganhando prestígio.
Entrou nos carros, nas fachadas, nos móveis, nas roupas, nos objetos. Foi morar nos escritórios, nos apartamentos e até naqueles ambientes cuidadosamente montados para parecer que ninguém realmente mora ali.
Tudo muito bonito.
Tudo muito organizado.
Tudo muito igual.
Não tenho nada contra o minimalismo. Pelo contrário. Há beleza na simplicidade. O problema começa quando a simplicidade deixa de ser uma escolha e passa a ser uma espécie de obrigação estética. Como se ter personalidade demais fosse sinal de mau gosto.
Mas talvez a questão seja maior do que a cor das coisas.
Talvez estejamos também ficando com medo de nossas próprias cores.
A gente aprende cedo a não destoar. A falar na medida certa, vestir-se na medida certa, pensar sem fazer muito barulho. Vai diminuindo o tom para não incomodar. Esconde uma vontade aqui, outra ali. Guarda uma opinião. Abandona uma mania. Troca aquilo que gosta pelo que combina.
E, quando percebe, está perfeitamente adequado à paisagem.
Isso me assusta mais do que um carro amarelo.
Porque uma cidade pode ser cinza e continuar bonita. Uma casa pode ser branca e continuar acolhedora. Uma roupa preta pode ser elegantíssima. O problema nunca foi o cinza.
O problema é quando tudo vira cinza.
Até as pessoas.
Tenho saudade de coisas que não pediam licença para existir. De uma parede azul sem preocupação com a decoração. De uma geladeira vermelha. De um carro amarelo atravessando a rua como quem não recebeu o memorando de que deveria ser discreto. De festas que tinham balões de todas as cores e nenhuma consultoria de harmonização cromática.
Talvez a vida precisasse de um pouco menos de combinação.
Porque há coisas que só fazem sentido quando destoam.
Uma cidade precisa de uma janela azul no meio do branco. Uma rua precisa de uma árvore que floresça quando ninguém está esperando. Uma roupa precisa, às vezes, de uma cor que não combine com absolutamente nada.
E uma pessoa também.
Talvez seja por isso que a publicação de @sobrepessoasintensas tenha ficado na minha cabeça. Porque, no fundo, ela não fala apenas sobre carros, casas, objetos ou tendências. Fala sobre o que acontece quando vamos retirando, aos poucos, aquilo que nos torna reconhecíveis.
A vida não precisa ser uma explosão de cores todos os dias. Há dias cinzentos, e eles também fazem parte da paisagem.
Mas que a gente não confunda tranquilidade com apagamento.
Nem elegância com ausência de personalidade.
Nem maturidade com a obrigação de combinar com tudo.
Porque, no final das contas, talvez ainda haja muita gente precisando recuperar uma cor que deixou pelo caminho.
E, sinceramente?
Eu espero que ela volte.
Mesmo que não combine com nada.
Duse Leite é funcionária pública e jornalista

