Há doenças que aparecem nos exames, nos consultórios e nas receitas médicas. São diagnosticadas, tratadas, acompanhadas. Mas existem outras — silenciosas — que caminham pelas ruas, sentam-se nas salas de estar, atravessam as telas dos celulares e se instalam, discretamente, na vida das pessoas. São as doenças do nosso tempo. A primeira delas talvez seja a pressa. Uma urgência constante que parece ter tomado conta de tudo. As pessoas correm de um compromisso para outro, respondem mensagens sem terminar de ler, conversam olhando para o relógio. A vida virou uma corrida onde quase ninguém sabe exatamente para onde está indo. Outra doença que cresce é a solidão. Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados. Telas acesas, redes sociais movimentadas, notificações chegando a cada instante. Ainda assim, há corações que passam dias inteiros sem ouvir uma palavra verdadeira, sem sentir a presença de alguém disposto apenas a escutar. Há também a ansiedade — esse peso invisível que faz o futuro chegar antes da hora. Pessoas inquietas, noites mal dormidas, pensamentos acelerados, como se viver o presente já não bastasse e fosse preciso carregar, de uma vez só, todas as preocupações do amanhã. Mas talvez a mais perigosa das doenças modernas seja a indiferença. Ela não causa febre nem deixa marcas visíveis, mas endurece o olhar e faz com que o sofrimento do outro passe despercebido, como se a dor alheia fosse sempre responsabilidade de alguém distante. E assim o mundo segue: cheio de tecnologia, de velocidade e de informação — e, ao mesmo tempo, cada vez mais carente de pausas, de escuta e de humanidade. Talvez a cura para muitas dessas doenças não esteja nas farmácias, mas em gestos simples: parar um pouco, olhar nos olhos, perguntar com sinceridade se alguém está bem, redescobrir o valor da presença. Porque, no fundo, o que mais adoece o nosso tempo não é o corpo. É o silêncio que cresce entre as pessoas, mesmo quando estamos todos juntos.
* Duse Leite é jornalista

