
{"id":40072,"date":"2026-10-08T15:40:14","date_gmt":"2026-10-08T18:40:14","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=40072"},"modified":"2026-10-08T15:40:14","modified_gmt":"2026-10-08T18:40:14","slug":"o-absurdo-virou-rotina-e-talvez-esse-seja-o-nosso-maior-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/o-absurdo-virou-rotina-e-talvez-esse-seja-o-nosso-maior-perigo\/","title":{"rendered":"O absurdo virou rotina \u2014 e talvez esse seja o nosso maior perigo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 alguma coisa acontecendo conosco. E talvez o mais preocupante seja que estamos come\u00e7ando a achar normal aquilo que, n\u00e3o faz muito tempo, nos faria parar para pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordamos e abrimos o celular. Uma guerra. Uma crian\u00e7a morta. Uma fam\u00edlia destru\u00edda. Uma pessoa desaparecida. Um esc\u00e2ndalo. Bilh\u00f5es movimentados enquanto algu\u00e9m n\u00e3o sabe como vai pagar o supermercado. Uma agress\u00e3o por causa de uma opini\u00e3o. Uma trag\u00e9dia que dura alguns minutos na tela e depois \u00e9 substitu\u00edda por outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente se assusta, comenta, compartilha e segue a vida.<br \/>\nAt\u00e9 a pr\u00f3xima not\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos vivendo uma \u00e9poca em que a informa\u00e7\u00e3o chega mais r\u00e1pido do que a nossa capacidade de compreend\u00ea-la. Sabemos de tudo um pouco e, muitas vezes, n\u00e3o conseguimos digerir quase nada. O mundo inteiro cabe na palma da m\u00e3o, mas parece cada vez mais dif\u00edcil enxergar quem est\u00e1 sentado ao nosso lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez essa seja uma das grandes contradi\u00e7\u00f5es do nosso tempo: nunca estivemos t\u00e3o conectados e, ao mesmo tempo, t\u00e3o distantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As redes sociais deveriam aproximar. Mas tamb\u00e9m criaram uma esp\u00e9cie de tribunal permanente. Todo mundo tem uma opini\u00e3o. Todo mundo tem uma resposta. Todo mundo sabe quem est\u00e1 certo e quem est\u00e1 errado. E, muitas vezes, ningu\u00e9m quer mais ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discordar deixou de ser simplesmente discordar. Virou ofensa. Virou briga. Virou rompimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fam\u00edlias se afastam. Amigos deixam de conversar. Pessoas que se gostam passam a se olhar como advers\u00e1rias por causa de pol\u00edtica, religi\u00e3o, futebol ou qualquer outro assunto que encontre espa\u00e7o para dividir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E enquanto brigamos uns com os outros, h\u00e1 problemas muito maiores acontecendo diante dos nossos olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desigualdade continua ali. A fome continua ali. A viol\u00eancia continua ali. A falta de acesso \u00e0 sa\u00fade continua ali. O trabalhador continua fazendo contas. O idoso continua precisando de cuidado. A juventude continua tentando descobrir que futuro ter\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E existe ainda uma coisa dif\u00edcil de medir: o cansa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muita gente cansada de lutar. Cansada de esperar. Cansada de explicar que n\u00e3o est\u00e1 bem. Cansada de trabalhar muito e continuar contando moedas. Cansada de cuidar de todo mundo e n\u00e3o encontrar quem cuide dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas at\u00e9 o cansa\u00e7o virou silencioso.<br \/>\nA pessoa sorri, responde &#8220;est\u00e1 tudo bem&#8221; e continua.<br \/>\nTalvez porque aprendemos a funcionar mesmo quando estamos quebrados por dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1 outro fen\u00f4meno que merece aten\u00e7\u00e3o: a banaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando uma trag\u00e9dia acontece uma vez, ela nos choca. Quando acontece muitas vezes, come\u00e7amos a trat\u00e1-la como estat\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a\u00ed que mora o perigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando uma crian\u00e7a passa fome e isso vira apenas um n\u00famero, perdemos alguma coisa. Quando uma morte violenta vira apenas mais uma manchete, perdemos alguma coisa. Quando uma pessoa pede ajuda e nossa primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 perguntar o que ela fez para merecer aquilo, perdemos alguma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco a pouco, vamos criando uma esp\u00e9cie de anestesia coletiva.<br \/>\nN\u00e3o porque deixamos de ter cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTalvez porque estamos cansados demais para sentir tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma sociedade n\u00e3o pode se acostumar completamente com o absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exatamente: houve melhoras no Brasil, nos estados, nos n\u00fameros, mas nada adianta avan\u00e7ar nos indicadores se a gente retroceder como pessoa, como gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos permitir que, de tanto olhar para os problemas, o absurdo deixe de nos causar espanto e o outro deixe de nos importar. N\u00f3s somos pessoas sens\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de viver revoltado o tempo inteiro. Ningu\u00e9m aguenta.<br \/>\nTrata-se de n\u00e3o perder a capacidade de se importar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, no meio de tanta not\u00edcia, tanta discuss\u00e3o, tanta pressa e tanta gente tentando provar que tem raz\u00e3o, existe uma coisa que continua sendo essencial: a nossa humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o verdadeiro desafio deste tempo n\u00e3o seja saber de tudo.<br \/>\nTalvez seja conseguir continuar sendo gente diante de tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Duse Leite<\/strong> \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguma coisa acontecendo conosco. E talvez o mais preocupante seja que estamos come\u00e7ando a achar normal aquilo que, n\u00e3o faz muito tempo, nos faria parar para pensar. Acordamos e abrimos o celular. Uma guerra. Uma crian\u00e7a morta. Uma fam\u00edlia destru\u00edda. 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