
{"id":39923,"date":"2026-09-24T14:11:11","date_gmt":"2026-09-24T17:11:11","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=39923"},"modified":"2026-09-24T14:11:11","modified_gmt":"2026-09-24T17:11:11","slug":"a-morte-lenta-das-cores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/a-morte-lenta-das-cores\/","title":{"rendered":"A morte lenta das cores"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Li uma publica\u00e7\u00e3o do perfil @sobrepessoasintensas, chamada \u201cA morte lenta das cores\u201d, e fiquei olhando para aquela fotografia como quem olha para uma lembran\u00e7a que n\u00e3o sabe exatamente de onde veio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem mostra um estacionamento cheio de carros antigos, cada um de uma cor. Vermelho, amarelo, azul, verde, laranja. Ao lado, os carros de hoje, quase todos vestidos de branco, preto, prata ou cinza. A legenda dizia que o mundo perdeu suas cores lentamente. N\u00e3o houve um dia em que algu\u00e9m decretou: \u201cA partir de agora, tudo ser\u00e1 neutro\u201d. As cores simplesmente foram desaparecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00f3s fomos chamando isso de bom gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja essa a parte mais curiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vermelho ficou exagerado. O amarelo, chamativo. O azul, ousado demais. O verde, dependendo do tom, quase uma provoca\u00e7\u00e3o. E o laranja, coitado, parece precisar de autoriza\u00e7\u00e3o judicial para circular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, o cinza foi ganhando prest\u00edgio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrou nos carros, nas fachadas, nos m\u00f3veis, nas roupas, nos objetos. Foi morar nos escrit\u00f3rios, nos apartamentos e at\u00e9 naqueles ambientes cuidadosamente montados para parecer que ningu\u00e9m realmente mora ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo muito bonito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo muito organizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo muito igual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tenho nada contra o minimalismo. Pelo contr\u00e1rio. H\u00e1 beleza na simplicidade. O problema come\u00e7a quando a simplicidade deixa de ser uma escolha e passa a ser uma esp\u00e9cie de obriga\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Como se ter personalidade demais fosse sinal de mau gosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez a quest\u00e3o seja maior do que a cor das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez estejamos tamb\u00e9m ficando com medo de nossas pr\u00f3prias cores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente aprende cedo a n\u00e3o destoar. A falar na medida certa, vestir-se na medida certa, pensar sem fazer muito barulho. Vai diminuindo o tom para n\u00e3o incomodar. Esconde uma vontade aqui, outra ali. Guarda uma opini\u00e3o. Abandona uma mania. Troca aquilo que gosta pelo que combina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, quando percebe, est\u00e1 perfeitamente adequado \u00e0 paisagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso me assusta mais do que um carro amarelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque uma cidade pode ser cinza e continuar bonita. Uma casa pode ser branca e continuar acolhedora. Uma roupa preta pode ser elegant\u00edssima. O problema nunca foi o cinza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 quando tudo vira cinza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho saudade de coisas que n\u00e3o pediam licen\u00e7a para existir. De uma parede azul sem preocupa\u00e7\u00e3o com a decora\u00e7\u00e3o. De uma geladeira vermelha. De um carro amarelo atravessando a rua como quem n\u00e3o recebeu o memorando de que deveria ser discreto. De festas que tinham bal\u00f5es de todas as cores e nenhuma consultoria de harmoniza\u00e7\u00e3o crom\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a vida precisasse de um pouco menos de combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque h\u00e1 coisas que s\u00f3 fazem sentido quando destoam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma cidade precisa de uma janela azul no meio do branco. Uma rua precisa de uma \u00e1rvore que flores\u00e7a quando ningu\u00e9m est\u00e1 esperando. Uma roupa precisa, \u00e0s vezes, de uma cor que n\u00e3o combine com absolutamente nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E uma pessoa tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja por isso que a publica\u00e7\u00e3o de @sobrepessoasintensas tenha ficado na minha cabe\u00e7a. Porque, no fundo, ela n\u00e3o fala apenas sobre carros, casas, objetos ou tend\u00eancias. Fala sobre o que acontece quando vamos retirando, aos poucos, aquilo que nos torna reconhec\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida n\u00e3o precisa ser uma explos\u00e3o de cores todos os dias. H\u00e1 dias cinzentos, e eles tamb\u00e9m fazem parte da paisagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas que a gente n\u00e3o confunda tranquilidade com apagamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem eleg\u00e2ncia com aus\u00eancia de personalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem maturidade com a obriga\u00e7\u00e3o de combinar com tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque, no final das contas, talvez ainda haja muita gente precisando recuperar uma cor que deixou pelo caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, sinceramente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu espero que ela volte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que n\u00e3o combine com nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Duse Leite<\/strong> \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li uma publica\u00e7\u00e3o do perfil @sobrepessoasintensas, chamada \u201cA morte lenta das cores\u201d, e fiquei olhando para aquela fotografia como quem olha para uma lembran\u00e7a que n\u00e3o sabe exatamente de onde veio. 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