
{"id":39241,"date":"2026-09-01T11:10:31","date_gmt":"2026-09-01T14:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=39241"},"modified":"2026-09-01T11:10:31","modified_gmt":"2026-09-01T14:10:31","slug":"maceio-entre-o-ceu-e-o-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/maceio-entre-o-ceu-e-o-mar\/","title":{"rendered":"MACEI\u00d3, ENTRE O C\u00c9U E O MAR"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 cidades que a gente conhece. H\u00e1 outras que a gente sente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Macei\u00f3 \u00e9 dessas que entram pelos olhos, mas ficam mesmo \u00e9 no cora\u00e7\u00e3o. Talvez porque aqui o c\u00e9u pare\u00e7a ter escolhido morar mais perto do mar. Talvez porque, entre uma nuvem e outra, entre o azul de cima e o azul de baixo, a cidade tenha aprendido a guardar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem nasce ou vive em Macei\u00f3 acaba criando uma intimidade quase silenciosa com o mar. A gente pode passar dias sem molhar os p\u00e9s, sem caminhar na areia, sem sequer parar para olhar a paisagem. Mas basta um instante diante daquela imensid\u00e3o para alguma coisa dentro da gente se ajeitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mar tem esse poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o pergunta o que aconteceu. N\u00e3o quer saber das nossas pressas, das contas que vencem, das decep\u00e7\u00f5es, das perdas, dos amores que chegaram e dos que partiram. Ele simplesmente est\u00e1 ali. Todos os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Batendo na mesma praia, mas nunca da mesma maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez seja por isso que Macei\u00f3 tenha essa capacidade de nos fazer voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltar para a praia depois de uma semana dif\u00edcil. Voltar para aquela rua onde a inf\u00e2ncia ainda parece morar. Voltar a uma lembran\u00e7a que julg\u00e1vamos esquecida. Voltar para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Macei\u00f3 n\u00e3o \u00e9 somente o mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe tamb\u00e9m o c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9u de fim de tarde, quando o sol se despede devagar e deixa nas nuvens uma esp\u00e9cie de pintura que nenhum artista conseguiria reproduzir exatamente. O c\u00e9u depois da chuva, lavado, quase novo. O c\u00e9u das manh\u00e3s claras, quando a cidade parece acordar com vontade de recome\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1 as noites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o azul desaparece, Macei\u00f3 ganha outras cores. As luzes acesas nos pr\u00e9dios, nas avenidas, nos bares e nas casas parecem pequenas estrelas inventadas pelos homens. L\u00e1 em cima, as estrelas verdadeiras continuam fazendo seu trabalho antigo: iluminando o que podem e lembrando que o mundo \u00e9 muito maior do que as nossas preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja essa conviv\u00eancia entre o c\u00e9u e o mar que fa\u00e7a de Macei\u00f3 uma cidade t\u00e3o contradit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 bonita, mas n\u00e3o \u00e9 perfeita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem suas dores, suas desigualdades, suas ruas esquecidas, seus problemas que insistem em permanecer. Tem gente que olha para a cidade e enxerga apenas o cen\u00e1rio. Outros olham e enxergam aquilo que ainda precisa ser cuidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu prefiro acreditar que amar uma cidade \u00e9 justamente n\u00e3o fechar os olhos para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem ama cuida. Quem ama reclama. Quem ama deseja que seja melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Macei\u00f3 merece mais do que fotografias bonitas para turistas. Merece que seus moradores possam viver a beleza que tantas vezes aparece nas imagens. Merece ruas cuidadas, espa\u00e7os p\u00fablicos preservados, cultura valorizada, mem\u00f3ria respeitada e oportunidades para quem nasceu aqui e para quem escolheu aqui ficar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque uma cidade n\u00e3o \u00e9 feita apenas de praias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 feita de pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 feita da senhora que abre a janela de manh\u00e3, do vendedor que come\u00e7a cedo, da crian\u00e7a que corre na cal\u00e7ada, do pescador que conhece o humor das \u00e1guas, do artista que transforma pouco em beleza, do trabalhador que atravessa a cidade todos os dias para ganhar a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 feita tamb\u00e9m daqueles que j\u00e1 foram embora, mas continuam carregando Macei\u00f3 dentro de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez essa seja a maior beleza de uma cidade: aquilo que ela consegue deixar na gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passa. As casas mudam. Pr\u00e9dios aparecem onde antes havia terrenos vazios. Ruas ganham outros nomes, outras cores, outros movimentos. Algumas paisagens desaparecem. Outras nascem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o c\u00e9u continua l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o mar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se fossem dois antigos guardi\u00f5es de uma cidade que muda sem deixar de ser ela mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes penso que Macei\u00f3 vive exatamente nesse intervalo: entre o c\u00e9u e o mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a mem\u00f3ria e o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a cidade que temos e a cidade que sonhamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E talvez seja por isso que, mesmo quando estamos cansados dela, quando reclamamos do tr\u00e2nsito, da chuva, da sujeira, dos problemas de sempre, basta um fim de tarde bonito para perdo\u00e1-la um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente olha para o horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e9u se encontra com o mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por alguns minutos, tudo parece estar no lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Macei\u00f3 n\u00e3o diz nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas continua ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Azul, imperfeita, bonita, nossa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00f3s continuamos aqui tamb\u00e9m, aprendendo todos os dias a morar nela \u2014 enquanto ela, sem pedir licen\u00e7a, continua morando dentro da gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Duse Leite<\/strong> \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cidades que a gente conhece. 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