
{"id":38738,"date":"2026-08-06T13:38:26","date_gmt":"2026-08-06T16:38:26","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=38738"},"modified":"2026-08-06T14:22:19","modified_gmt":"2026-08-06T17:22:19","slug":"o-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/o-mestre\/","title":{"rendered":"O Mestre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Meu pai nunca me deu uma aula formal de escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca me sentou diante de uma folha em branco para explicar onde cabia uma v\u00edrgula, como se constru\u00eda uma cr\u00f4nica ou qual era o segredo para prender a aten\u00e7\u00e3o de um leitor. O que ele fez foi muito maior do que isso. Ele me ensinou vivendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa casa era uma sala de aula sem quadro-negro. Bastava ele come\u00e7ar uma conversa ou abrir uma folha de papel para ler uma de suas cr\u00f4nicas que, naturalmente, todos se aproximavam. Gustavo, Karina, Nat\u00e1lia, eu&#8230; cada um aprendia \u00e0 sua maneira. Meu pai distribu\u00eda conhecimento sem perceber. Era um homem de intelig\u00eancia rara, apaixonado pelos livros, curioso sobre o mundo e profundamente sens\u00edvel \u00e0s pessoas. Conseguia transformar um fato aparentemente sem import\u00e2ncia em uma hist\u00f3ria que permanecia conosco por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu gostava, principalmente, de ouvi-lo ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras ganhavam ritmo, inten\u00e7\u00e3o, humor. As pausas eram t\u00e3o importantes quanto as frases. Havia m\u00fasica na sua leitura. Hoje, um amigo jornalista costuma dizer que poucas pessoas conseguem dar tanta entona\u00e7\u00e3o a um texto quanto eu. Sempre sorrio quando ou\u00e7o isso. N\u00e3o considero um elogio apenas a mim. \u00c9 uma homenagem involunt\u00e1ria ao meu mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha m\u00e3e, que sempre viveu o teatro com a alma inteira, ensinou outra li\u00e7\u00e3o que jamais esqueci. Ela dizia que ator n\u00e3o decora texto. Ator estuda o texto. S\u00f3 depois de compreend\u00ea-lo profundamente \u00e9 que consegue interpret\u00e1-lo com verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez por isso eu nunca tenha conseguido apenas ler o que escrevo. Preciso sentir cada palavra, descobrir suas inflex\u00f5es, entender seus sil\u00eancios. A escrita e a leitura, para mim, sempre caminharam juntas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o passar dos anos, percebi que herdei do meu pai muito mais do que o gosto pelas palavras. Herdei o olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando escrevo sobre uma mudan\u00e7a de casa, sobre a vizinha do apartamento, sobre um caminh\u00e3o do lixo que n\u00e3o passa, sobre uma torneira insistente ou at\u00e9 sobre um simples palito de caixa de f\u00f3sforos, descubro que estou fazendo exatamente o que ele fazia: encontrando a grandeza escondida nas pequenas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes me perguntam por que escrevo sobre tantos assuntos. Pol\u00edtica, cultura, cotidiano, mem\u00f3rias, sentimentos. A resposta talvez esteja aqui. Meu pai nunca limitou a vida a um \u00fanico tema. A vida era o seu assunto. E a vida nunca foi feita de uma \u00fanica p\u00e1gina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele teve muitos alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ensinou a mim, ensinou a Gustavo, ensinou a Karina, deixou marcas em Nat\u00e1lia e em tantas outras pessoas que tiveram o privil\u00e9gio de conviver com ele. Alguns aprenderam ouvindo seus conselhos. Outros, apenas observando seu jeito de viver e de escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto a mim, continuo aprendendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque os verdadeiros mestres nunca terminam de ensinar. Permanecem vivos em cada gesto, em cada frase e em cada lembran\u00e7a que nos ajuda a seguir adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se fui uma boa aluna, n\u00e3o cabe a mim responder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bom aluno n\u00e3o \u00e9 aquele que escreve igual ao mestre. \u00c9 aquele que honra o que aprendeu e encontra a pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passei a vida observando meu pai, aprendendo com seu humor, sua intelig\u00eancia, sua generosidade e seu modo t\u00e3o singular de enxergar o mundo. Nunca quis ser uma c\u00f3pia dele. Quis apenas ser digna dos ensinamentos que recebi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, quando termino uma cr\u00f4nica, quando encontro poesia onde quase ningu\u00e9m procura ou quando descubro humanidade nas coisas mais simples do cotidiano, sinto que uma parte dele continua escrevendo atrav\u00e9s de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E gosto de imaginar que, depois de ler estas linhas, ele fecharia o papel, abriria aquele sorriso discreto que eu conhecia t\u00e3o bem e diria apenas:<br \/>\n\u2014 Duse, minha filha&#8230; voc\u00ea aprendeu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Duse Leite<\/strong> \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu pai nunca me deu uma aula formal de escrita. 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