
{"id":38302,"date":"2026-07-21T10:29:22","date_gmt":"2026-07-21T13:29:22","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=38302"},"modified":"2026-07-21T10:29:22","modified_gmt":"2026-07-21T13:29:22","slug":"o-caminhao-do-lixo-deve-ter-medo-da-minha-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/o-caminhao-do-lixo-deve-ter-medo-da-minha-rua\/","title":{"rendered":"O Caminh\u00e3o do Lixo Deve Ter Medo da Minha Rua"},"content":{"rendered":"<p>Voltei a morar na rua onde nasci.<br \/>\nConfesso que esperava encontrar algumas mudan\u00e7as. Afinal, o tempo passa para todo mundo. S\u00f3 n\u00e3o imaginei que a minha rua tivesse resolvido se transformar numa reserva ecol\u00f3gica.<br \/>\nNa minha inf\u00e2ncia era tudo diferente.<br \/>\nDe um lado morava dr. Ars\u00eanio. Do outro, um tio. Mais adiante, uma tia. Virando a esquina, outra tia. Era uma rua de gente que se conhecia, que fazia fogueira no S\u00e3o Jo\u00e3o, que conversava na cal\u00e7ada e sabia at\u00e9 quem estava fazendo caf\u00e9.<br \/>\nHoje&#8230;<br \/>\nHoje moro numa rua onde o mato me conhece pelo nome.<br \/>\nAcho at\u00e9 que, se eu faltar dois dias, ele manda algu\u00e9m perguntar se est\u00e1 tudo bem.<br \/>\nQuando voltei, o mato estava pela altura do joelho. N\u00e3o sei se aquilo era capim ou uma tentativa de reflorestamento urbano.<br \/>\nComecei minha campanha.<br \/>\nLiguei.<br \/>\nReclamei.<br \/>\nInsisti.<br \/>\nConversei.<br \/>\nPedi.<br \/>\nFinalmente apareceram para cortar o mato.<br \/>\nFiquei feliz.<br \/>\nA felicidade durou exatamente o tempo de perceber que cortaram o mato&#8230; e deixaram o mato.<br \/>\nFoi uma limpeza moderna. O mato apenas mudou de posi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas o verdadeiro protagonista da hist\u00f3ria \u00e9 o caminh\u00e3o do lixo.<br \/>\nTenho quase certeza de que o motorista chega \u00e0 esquina, reduz a velocidade, olha para a minha rua e pensa:<br \/>\n\u2014 N\u00e3o&#8230; essa eu deixo para a semana que vem.<br \/>\nE vai embora.<br \/>\nO caminh\u00e3o aparece com a mesma frequ\u00eancia de alguns parentes.<br \/>\nS\u00f3 quando quer.<br \/>\nDe prefer\u00eancia em anivers\u00e1rio, Natal ou quando resolve dar o ar da gra\u00e7a.<br \/>\nEnquanto isso, o lixo vai criando intimidade.<br \/>\nJ\u00e1 nos cumprimentamos todas as manh\u00e3s.<br \/>\nOs pap\u00e9is resolveram fazer turismo. Quando venta, passeiam pela rua inteira. Tem saco pl\u00e1stico que j\u00e1 conhece mais o bairro do que muita gente.<br \/>\nOs carros tamb\u00e9m participam.<br \/>\nAntes passavam sobre o cal\u00e7amento.<br \/>\nAgora passam sobre o lixo.<br \/>\nO barulho mudou.<br \/>\n\u00c9 um &#8220;crec&#8221;, &#8220;ploc&#8221;, &#8220;tronc&#8221;, como se a rua tivesse criado uma escola de samba s\u00f3 para sacos pl\u00e1sticos e garrafas vazias.<br \/>\nE ainda aparecem os especialistas em arqueologia do lixo.<br \/>\nAbrem os sacos, fazem uma pesquisa detalhada e deixam tudo espalhado.<br \/>\nEu gosto de colocar meu lixo em sacos pretos. Acho que lixo tamb\u00e9m tem direito \u00e0 privacidade.<br \/>\nNingu\u00e9m precisa saber quantas bananas eu comi, quantas caixas de leite usei ou qual foi o destino daquele pote sem tampa que morava na minha cozinha.<br \/>\nFoi exatamente por causa dessa intimidade que aconteceu uma das cenas mais curiosas da minha vida.<br \/>\nResolvi jogar fora um par de t\u00eanis velho.<br \/>\nNo dia seguinte descobri que apenas um p\u00e9 tinha ido embora.<br \/>\nO outro continuava em casa.<br \/>\nAt\u00e9 hoje n\u00e3o sei se fui eu que joguei um s\u00f3 ou se algu\u00e9m resolveu fazer ado\u00e7\u00e3o parcial.<br \/>\nSei apenas que existe, em algum lugar desta cidade, um cidad\u00e3o procurando desesperadamente o p\u00e9 direito de um t\u00eanis que ficou na minha casa.<br \/>\nO curioso \u00e9 que hoje sou a \u00fanica moradora da rua.<br \/>\nA \u00fanica.<br \/>\nTalvez por isso pensem que a rua tamb\u00e9m foi embora.<br \/>\nMas ela n\u00e3o foi.<br \/>\nNem eu.<br \/>\nContinuo telefonando.<br \/>\nContinuo reclamando.<br \/>\nContinuo insistindo.<br \/>\nPorque descobri uma coisa.<br \/>\nSe eu n\u00e3o insistir, termino sendo mais um elemento do lixo.<br \/>\nE isso eu n\u00e3o aceito.<br \/>\nAfinal, j\u00e1 basta o mato me conhecer pelo nome.<br \/>\nN\u00e3o quero que o caminh\u00e3o do lixo passe um dia, olhe para mim na cal\u00e7ada e pergunte:<br \/>\n\u2014 A senhora vai junto ou fica para a pr\u00f3xima coleta?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Duse Leite<\/strong> \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltei a morar na rua onde nasci. Confesso que esperava encontrar algumas mudan\u00e7as. Afinal, o tempo passa para todo mundo. S\u00f3 n\u00e3o imaginei que a minha rua tivesse resolvido se transformar numa reserva ecol\u00f3gica. Na minha inf\u00e2ncia era tudo diferente. De um lado morava dr. Ars\u00eanio. Do outro, um tio. Mais adiante, uma tia. 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