
{"id":38217,"date":"2026-07-16T14:28:52","date_gmt":"2026-07-16T17:28:52","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=38217"},"modified":"2026-07-16T14:29:13","modified_gmt":"2026-07-16T17:29:13","slug":"o-degrau-onde-a-poesia-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/o-degrau-onde-a-poesia-espera\/","title":{"rendered":"O degrau onde a poesia espera"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 alguns anos, algu\u00e9m escreveu numa parede uma pergunta que ainda ecoa: &#8220;Em qual degrau cabe a minha poesia?&#8221; N\u00e3o era apenas um poema. Era um convite para que cada pessoa que subisse ou descesse aquela escadaria percebesse que a cidade tamb\u00e9m pode ser lida. Que um muro pode ser p\u00e1gina. Que um degrau pode ser verso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, ao voltar ao lugar, encontrei a mesma escadaria. Mas ela j\u00e1 n\u00e3o era exatamente a mesma. Os azulejos continuam colorindo os degraus, resistindo como quem se recusa a desaparecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema ainda permanece na parede, embora o tempo tenha apagado parte de suas letras. Bancos gastos, plantas que sobrevivem como podem e pequenos sinais de descuido revelam uma verdade silenciosa: o tempo passa para as pessoas, mas tamb\u00e9m passa para as cidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum espa\u00e7o permanece bonito apenas porque um dia foi inaugurado. A beleza exige cuidado. A arte exige perman\u00eancia. O patrim\u00f4nio precisa de m\u00e3os que o defendam depois que as fotografias da inaugura\u00e7\u00e3o deixam de ser not\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o maior perigo n\u00e3o seja a tinta desbotando nem o cimento envelhecendo. O maior perigo \u00e9 quando nos acostumamos ao abandono. Quando deixamos de enxergar que aquele lugar j\u00e1 foi motivo de orgulho. Quando passamos pela escadaria sem ler o poema, sem olhar os degraus, sem perceber que ali existe uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poesia de M\u00edrian Monte continua fazendo a mesma pergunta. Mas hoje ela parece ganhar outro sentido: em qual degrau deixamos nossa responsabilidade pela cidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque cidades tamb\u00e9m adoecem quando seus habitantes deixam de cuidar delas. Nenhuma obra p\u00fablica se sustenta apenas com discursos. Ela precisa de manuten\u00e7\u00e3o, respeito e pertencimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00ed dali convencida de que a poesia n\u00e3o foi embora. Ela continua esperando. Esperando o olhar de quem ainda acredita que recuperar uma escadaria \u00e9 mais do que reformar concreto. \u00c9 restaurar a esperan\u00e7a de que os espa\u00e7os p\u00fablicos podem voltar a ser lugares de encontro, de beleza e de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez a poesia nunca tenha sa\u00eddo daquele lugar. Talvez sejamos n\u00f3s que, correndo demais, tenhamos deixado de subir seus degraus olhando para cima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Duse Leite<\/em><\/strong><br \/>\n<em>@duseleite \u2013 Funcion\u00e1ria P\u00fablica e Jornalista<\/em><\/p>\n<p>Poema: &#8221; Em qual degrau cabe a minha poesia?&#8221; De M\u00edrian Monte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, algu\u00e9m escreveu numa parede uma pergunta que ainda ecoa: &#8220;Em qual degrau cabe a minha poesia?&#8221; N\u00e3o era apenas um poema. 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