
{"id":38103,"date":"2026-07-09T11:19:48","date_gmt":"2026-07-09T14:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/?p=38103"},"modified":"2026-07-09T11:19:48","modified_gmt":"2026-07-09T14:19:48","slug":"o-catole","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/visaodealagoas.com.br\/inicio\/o-catole\/","title":{"rendered":"O Catol\u00e9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 lugares que desaparecem do mapa da nossa vida, mas nunca saem da mem\u00f3ria.<br \/>\nO Catol\u00e9 \u00e9 um deles.<br \/>\nFicava em Satuba, e durante muitos anos foi o cen\u00e1rio dos dias mais felizes das nossas f\u00e9rias. Meu pai tinha um costume que hoje me parece um gesto de pura sabedoria: em vez de alugar o local nos finais de semana, quando tudo ficava cheio e barulhento, ele alugava durante a semana. Assim, o Catol\u00e9 era praticamente nosso.<br \/>\nE quando digo nosso, n\u00e3o falo apenas de pai, m\u00e3e e filhos.<br \/>\nFalo dos primos.<br \/>\nTodos os primos.<br \/>\nNaquela \u00e9poca, nossa fam\u00edlia ocupava um quarteir\u00e3o inteiro no Farol. Os quintais quase se encontravam, as casas viviam de portas abertas e a inf\u00e2ncia corria livre de uma para outra. Bastava meu pai anunciar que havia alugado o Catol\u00e9 para a not\u00edcia atravessar os quintais numa velocidade maior que qualquer telefone.<br \/>\nNo dia marcado, l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s.<br \/>\nA alegria come\u00e7ava antes mesmo de chegar.<br \/>\nLev\u00e1vamos boias de todo tipo. Algumas eram compradas em lojas. Outras eram velhos pneus de carro reaproveitados com toda a dignidade do mundo. Para n\u00f3s, n\u00e3o havia diferen\u00e7a. O importante era entrar na \u00e1gua.<br \/>\nE que \u00e1gua.<br \/>\nA piscina era abastecida por uma nascente que vinha da mata. Eu nunca soube exatamente de onde aquela \u00e1gua surgia. Sabia apenas que ela chegava fria, cristalina e abundante, escorrendo entre as \u00e1rvores at\u00e9 encher a piscina que nos esperava como um convite irrecus\u00e1vel.<br \/>\nAo redor, os eucaliptos dominavam a paisagem.<br \/>\nAinda hoje, quando sinto aquele cheiro caracter\u00edstico, sou transportada para l\u00e1. Vejo novamente os troncos altos, a sombra espalhada pelo ch\u00e3o e o sol filtrado entre os galhos.<br \/>\nO lugar tinha uma grande mesa de cimento armado, daquelas feitas para durar uma vida inteira. Havia tamb\u00e9m dois espa\u00e7os para troca de roupa, um feminino e outro masculino, al\u00e9m do banheiro propriamente dito. As portas eram verdes. Curioso como a mem\u00f3ria guarda certas coisas. De tudo o que poderia ter esquecido, lembro perfeitamente das portas verdes.<br \/>\nEnquanto n\u00f3s mergulh\u00e1vamos sem descanso, minha m\u00e3e assumia seu posto.<br \/>\nLevava uma panela de barro e preparava uma feijoada cujo aroma parecia se espalhar por todo o s\u00edtio. Era imposs\u00edvel resistir.<br \/>\nMas n\u00f3s tent\u00e1vamos.<br \/>\nPorque a piscina sempre vencia.<br \/>\nSa\u00edamos da \u00e1gua para comer.<br \/>\nVolt\u00e1vamos correndo.<br \/>\nCom\u00edamos uma manga.<br \/>\nVolt\u00e1vamos para a \u00e1gua.<br \/>\nBelisc\u00e1vamos uma banana.<br \/>\nVolt\u00e1vamos para a \u00e1gua.<br \/>\nTom\u00e1vamos um peda\u00e7o de laranja-cravo.<br \/>\nE volt\u00e1vamos mais uma vez.<br \/>\nPass\u00e1vamos o dia inteiro assim.<br \/>\nOs dedos ficavam franzidos.<br \/>\nOs l\u00e1bios arroxeados pelo frio.<br \/>\nE ningu\u00e9m queria saber de sair.<br \/>\nDe vez em quando apareciam os meninos das redondezas carregando bacias e cestos cheios de mangas, cajus e coquinhos. Meu pai tinha o h\u00e1bito de comprar tudo. Absolutamente tudo.<br \/>\nTalvez para ajudar aqueles meninos.<br \/>\nTalvez porque soubesse que fruta fresca nunca era demais diante de uma tropa de crian\u00e7as famintas.<br \/>\nTalvez pelas duas raz\u00f5es.<br \/>\nO fato \u00e9 que as frutas logo desapareciam entre risos, mergulhos e brincadeiras.<br \/>\nE o dia seguia seu curso sem que ningu\u00e9m percebesse.<br \/>\nNaquele tempo, as horas n\u00e3o tinham pressa.<br \/>\nN\u00e3o existia celular tocando.<br \/>\nN\u00e3o existia mensagem chegando.<br \/>\nN\u00e3o existia urg\u00eancia.<br \/>\nExistia apenas o dia.<br \/>\nUm dia inteiro.<br \/>\nQuando a tarde come\u00e7ava a cair, minha m\u00e3e e meu pai iniciavam a mesma batalha de sempre:<br \/>\n\u2014 Menino, saia um pouco dessa \u00e1gua!<br \/>\nN\u00f3s sa\u00edamos.<br \/>\nCinco minutos depois, est\u00e1vamos de volta.<br \/>\nMas havia um sinal que n\u00e3o admitia discuss\u00e3o.<br \/>\nPor volta das cinco horas, come\u00e7avam a aparecer os maru\u00eds, aqueles mosquitinhos insistentes que anunciavam o fim da festa. Era a hora de recolher as coisas.<br \/>\nA contragosto, troc\u00e1vamos de roupa.<br \/>\nE ent\u00e3o vinha o momento mais bonito.<br \/>\nO sol j\u00e1 estava baixo.<br \/>\nA luz atravessava os galhos dos eucaliptos e desenhava faixas douradas pelo caminho. O dia escurecia devagar, como se tamb\u00e9m n\u00e3o quisesse ir embora.<br \/>\nN\u00f3s entr\u00e1vamos no carro cansados, com cheiro de piscina, de mato, de fruta e de feijoada.<br \/>\nE volt\u00e1vamos para casa felizes.<br \/>\nHoje, n\u00e3o sei se aquela mesa de cimento ainda existe. N\u00e3o sei se as portas continuam verdes. N\u00e3o sei sequer se os eucaliptos permanecem de p\u00e9.<br \/>\nMas, quando fecho os olhos, tudo continua l\u00e1.<br \/>\nVejo meus primos correndo.<br \/>\nVejo meu pai comprando frutas dos meninos da regi\u00e3o.<br \/>\nVejo minha m\u00e3e mexendo a feijoada na panela de barro.<br \/>\nE vejo aquele peda\u00e7o de mundo que, durante alguns dias das f\u00e9rias, parecia pertencer apenas \u00e0 nossa fam\u00edlia.<br \/>\nTalvez seja isso a inf\u00e2ncia.<br \/>\nUm lugar para o qual nunca voltamos de verdade.<br \/>\nMas que nunca nos deixa partir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Duse Leite<\/strong>\u00a0\u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica e jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 lugares que desaparecem do mapa da nossa vida, mas nunca saem da mem\u00f3ria. O Catol\u00e9 \u00e9 um deles. Ficava em Satuba, e durante muitos anos foi o cen\u00e1rio dos dias mais felizes das nossas f\u00e9rias. 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